uma Plataforma Atlântica

‘A Cidade na ponta dos dedos’ é um porto de embarque, uma plataforma. Um porto para descobrir e redescobrir a cidade. De onde os portugueses e os estrangeiros apanham uma carruagem para algum lugar.

A minha vida passa por uma transcendente paixão por Lisboa. Um amor que nasceu no Chiado, na Rua do Alecrim e onde o meu Pai, como Alfarrabista, me deu um enorme sentido de sabedoria, de pátria e de perseverança perante todas a adversidades. A criatividade e o sentido estético da minha Mãe que me ensinou o amor incondicional e com quem eu guardo as memórias do Chiado antigo, como uma miúda guarda um tesouro.

Nas memorias ainda vivas, o perfume da Casa Pereira que ainda hoje me faz desacelerar o movimento dos passos, os lanches de panquecas na Casa de Chá da Caravela, as gasosas de pirolito na Benard, o queque e o Tody de chocolate na Pastelaria Parisiense, onde hoje está o bar do Hotel do Bairro Alto. A magia do elevador do Ramiro Leão, o deslumbre sempre que entrava na Perfumaria da Moda e as luzes coloridas que atravessavam os frasquinhos de missangas da Casa Batalha. O batido de morango e as bolachas de framboesa da pastelaria Ferrari, e claro a imortal Luvaria Ulisses, onde ainda hoje protejo o poder das mãos.

E a cidade cénica no Lisbon Story de Wim Wenders, que em 1994 homenageou Lisboa como capital europeia da cultura e no seguimento do incendio do Chiado, me confirmou toda a entrega que ofereço a esta cidade que me move todos os dias. A importância da reconstrução, da preservação e do património e os estrangeiros que amam Lisboa. O azul dos azulejos e as imagens cénicas de uma cidade única no mundo, onde a partilha e a importância dos idosos é urgente.

O Porto. O Porto lado romântico do Norte, a intimidade das margens do Douro, o empreendedorismo, a graciosidade humana e o chamarem-me ‘menina’ a todas as horas do dia.

E os Açores, a beleza sagrada das nossas ilhas, a extensão do Alentejo e todo o nosso país Atlântico, a transversalidade, os contrastes abraçados pelos postais de Lisboa e Porto.

E voar, de asas bem alto, nos atos e nas palavras como se tudo fosse possível. De encantar, e de encantarmo-nos a nós próprios, de nos apaixonarmos por tudo o que somos enquanto país, porque é aí que tudo começa.