Da ilha que me mostrou o estado de humanidade mais puro que tinha vivido no nosso pedaço de terra, voo ao encontro de um português que me privilegia com um enorme sentido de partilha de mundo.

Mas antes de abrir a porta, peço-vos desculpa. A Saída de Emergência sai absolutamente à quinta-feira, mas por ter ficado retida na poderosa energia da montanha mais alta de Portugal, não me foi possível enviar as palavras no tempo mais certo. Na ilha do Pico, a realidade e a beleza são comoventes e é a atravessar o Atlântico – palavra da qual jamais dissociarei a minha existência e identidade – que observo sempre a minha nação maior.

Duarte D’Eça Leal é o mais novo de três irmãos que, juntamente com Bernardo e Martim, cresceu com a sensibilidade à palavra ‘recuperar’ e abriu uma espantosa porta do Príncipe Real. Habituada a ganhar prémios como um dos melhores hostels do mundo, Lisboa passou a ter mais uma morada que será muito mais do que um edifico para os estrangeiros sonharem na nossa cidade. Ainda em ‘soft opening’, Duarte move-se com uma alegria rara, das que apenas identifico nos meus amigos que viveram além fronteiras. Com muitos anos de vida na cidade de Londres e muitos carimbos no passaporte, de muitos meses à descoberta da extensão do mundo, este viajante transporta experiências fascinantes na mala de viagem e fala de Lisboa como quem ilumina os becos mais escondidos da cidade.

Com a vivacidade gravada na pele, própria de quem quer oferecer um lugar onde se possa também viajar na mente, as suas mãos que constroem sonhos abrem-me as portas dos quartos. A beleza e o branco dos estuques recuperados iluminam-me os olhos. A vista da janela também. E se ao longe avisto o castelo, não tenho qualquer dúvida, quando vos escrevo que este será um hostel digno de príncipes apaixonados por uma mulher chamada Lisboa.

Rendo-me à invulgaridade das camas: são tripliches – beliches de três camas – em madeira aglomerada que imitam caixas de frutas das praças da cidade. A ideia genial supera a minha admiração quando vejo que todos os espaços da sua estrutura foram aproveitados para arrumação em gavetas e pequenos armários.

Mais do que um hostel para o mundo, este palácio do início do século passado, da Rua de São Pedro de Alcântara, promete ser uma morada sensação do regresso. Não apenas porque será um destino obrigatório a todos os portugueses que queiram viver Lisboa na sua essência, mas porque, dentro do edifício, habita o pulsar de um coração. O restaurante The Decadente, aberto a todos os que apenas viajam na calçada portuguesa, separa o Bar Longe do terraço do hostel e já está a animar os fins de tarde e a hora de jantar, que se estendem também a noites de música ao vivo. A missão passa também pela paixão de partilhar produtos exclusivamente portugueses, numa responsabilidade sazonal com cocktails e licores que elogiam os artigos da nossa praça, sempre com grande aproveitamento de ingredientes que, na sua mistura, abraçam-se à criatividade.

As paredes sólidas respiram prazer e procura de algo mais elevado. Uma enorme demanda de fazer de Lisboa uma cidade onde não se sinta falta de viver noutra capital do mundo. Escrevo-vos esta crónica com os pés assentes nos mármores do palácio e enquanto agradeço à família que nos oferece estas paredes carregadas de paixão, com quem confirmo a cumplicidade de que é tão fácil fazer bem, fecho os olhos. Fecho os olhos que se rasgam enquanto abraço os que constroem tão bem a minha Lisboa mais imaginada.

crónica publicada a 23 de Setembro de 2011 na Vogue

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