As a curator of the best of Portugal and World traveller, with more than twenty years of articles published, in the national and international press, and also as a TV Show Author, this is my digital magazine, where I present my curated experiences  and travel collection.

Sancha D’Oriol Trindade

Reabilitar o Cabo Espichel, uma proposta urgente

Esta semana acabei o Pagetur, o Programa Avançado de Gestão para o Turismo da Universidade Católica Portuguesa School of Business & Economics. Na defesa do potencial da Marca Portugal e no elogio à Atlanticidade que tanto inspira esta plataforma deixo-vos o perfume do trabalho que eu e o meu grupo  – um agradecimento aos meus aliados neste trabalho da autoria de  Armando Alves, Elisabete Mendes, Maria de Lurdes Vale e Miguel Verde, em especial para a Maria de Lurdes Vale, autora do texto que vos deixo e que muito bem nos representou na apresentação. Um sonho que esperamos ver implementado antes de partir deste mundo. ;-).

O Cabo Espichel é um lugar mágico. Assim foi descrito ao longo de séculos por historiadores, escritores, pensadores – desde Estrabão, Ptolomeu, Sebastião da Gama ou Vitor Serrão – e assim continua a ser visto por quem o visita atualmente. Fazendo uma pesquisa nas redes sociais sobre a impressão que este local causa a quem o conhece ou por lá passou, percebe-se facilmente que os adjetivos “mágico” e “maravilhoso” são os mais utilizados para o caracterizar. Mas percebe-se igualmente que a desilusão se instala quando o visitante comenta com um “que pena!” o estado de degradação em que se encontra o património ali edificado desde o século XIV. O ponto de partida para a realização do trabalho que apresentamos é este: como tornar um espaço mágico, mas abandonado, num espaço valorizado, diferenciador e de forte atração turística.

Existem talvez poucos sítios em Portugal e no mundo – vamos ser ambiciosos – que transmitem uma sensação de bem estar e plenitude a quem o visita como este promontório sagrado, situado a 50 quilómetros ao sul de Lisboa, no concelho de Sesimbra.

Tudo naquele local é misterioso. Há dias em que os quatro elementos primordiais estão em perfeito equilíbrio. Tal fenómeno acontece no Verão, a partir de 15 de Julho, e sempre por volta das 19 horas, altura em que o sol – os antigos diziam que eram dois sóis – se transfigura numa bola de fogo imensa e começa a cair no horizonte. O vento amaina, a terra ganha mais cor, o mar confunde-se com o céu e o silêncio cai como o pano de um teatro. É indescritível.

Conta a tradição popular que a fé ali chamou desde muito cedo povos de diferentes religiões, embora ninguém saiba explicar como nem quando começaram as peregrinações, romarias, procissões e círios. Sabe-se apenas, segundo antropólogos e sociólogos, que os finisterrae exerceram desde sempre um poder de atração enorme sobre o Homem porque simbolizam o princípio do fim, a renovação ou tão simplesmente “o sítio onde a terra acaba e o mar começa” tal como ficou expresso por Fernando Pessoa.

A bibliografia existente refere que o culto pode ter nascido há mais de 600 anos. A fé, assente em lendas e na imagem de uma Nossa Senhora encontrada numa gruta, moveu milhares de pessoas a irem ciclicamente, uma vez por ano, até ao Cabo, agradecer à Virgem o cumprimento de sonhos, promessas e milagres. Aos agricultores e pescadores de 26 freguesias de Lisboa, Almada e Caparica – que se uniram em confrarias representantes dos dois lados do Tejo – , juntaram-se reis e rainhas, príncipes e princesas, duques e viscondes numa tradição que durou até ao início do século XIX. O Cabo Espichel foi um marco na vida religiosa e cultural do País e a edificação da Ermida da Memória, da Igreja, do Aqueduto, da Mãe de Água e da Casa da Ópera são a prova material da simbologia atribuída àquele lugar. 5

Há autores, como o sociólogo Luís Marques, que designam o Cabo Espichel como um “Paraíso no fim do mundo”, e outros, de pendor mais religioso, que o identificam como o Cabo da Esperança ou da Luz.

Consideramos que a valorização do património material e imaterial de um País contribui para a sua diferenciação enquanto destino turístico e simultaneamente para o desenvolvimento das economias locais e regionais.

O projeto que apresentamos tem como finalidade a criação de um pólo turístico no Santuário da Nossa Senhora do Cabo através da recuperação do conjunto edificado, da proteção, identificação e interpretação da área envolvente – flora, fauna, e vestígios arqueológicos – e promoção de produtos regionais.

Como explica a historiadora brasileira Maria Cristina Mineiro na obra ABC do Turismo – Turismo e Arqueologia, o “Turismo aliado ao património tem a faculdade de revelar a identidade do território e as qualidades de uma cultura local, fixando imagens e mensagens em experiências por meio de objectos e vestígios que testemunham o modo de viver e de trabalhar de uma comunidade”.

Com a candidatura da Serra da Arrábida a património Mundial da Humanidade, já aceite pela UNESCO para decisão em 2014, o Santuário do Cabo Espichel pode ganhar uma outra afirmação no panorama cultural e turístico mundial. É urgente dignificá-lo.

texto de Maria de Lurdes Vale, Vogal Conselho Directivo do Turismo de Portugal