Preciosa, a sorte grande dois anos depois

Num dos meses estivais de 2012 escrevi sobre a Preciosa e hoje recebo um comentário no post que recordo em baixo e que achei delicioso partilhar. São histórias que elevam o património humano da cidade, e que vou recolhendo dos idosos com quem vou conversando e aprendendo tanto sobre a fórmula da mais simples felicidade.

“Sorte grande foi a minha por ter sido educada e amada por um pai surdo-mudo, ardina de profissão, nesta minha cidade que é Lisboa. Casado com uma grande mulher, de coração enorme de valores e humildade. Mulher, mãe, amiga, que apesar de uma vida dura, continua hoje com 76 anos a mostrar que é uma guerreira. Sorte grande é a minha por ser uma das filhas da D.Preciosa! Obrigada pela sua sensibilidade, por descobrir também, esta pequena, grande senhora, de quem tanto me orgulho”.

O Pedro esperava-me para almoçar num dos restaurantes da ala nascente do Terreiro do Paço e quando dou por mim, a aumentar os ouvidos, os meus olhos não me enganavam. Para quem não sabe, eu propus ao Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Lisboa, o regresso dos pregões a todos os bairros da cidade. Por isso a voz da ‘cauteleira’ pôs-me a correr pelas arcadas nascentes.

Ansiosa e  para não perder o momento, os meus passos buscavam a voz que se espalhava pela grande ala. Amoladores sonoros ainda os oiço, em dias de chuva, mas uma cauteleira no lindo cenário do Terreiro do Paço seria a primeira vez. Atrasada para o almoço, confesso que me perdi no tempo. Há momentos que não voltam atrás e este era um desses, únicos e raros postais sonoros da cidade.

Pedro avistava-me ao longe e cavalheiro, como sempre, aguardou que a minha ansiedade de postais de coleção fosse vivida. Minutos de conversa onde registei que esta senhora, com feições de menina, costuma estar em Alfama e ao falar-me da família, os olhos inundam-se. Falamos da importância da partilha na intimidade e sobre um homem que já partiu. O olhar da sua sabedoria reflete saudade. Muita. Passa pela nossa conversa um casal de namorados, que surpreso aceita o convite de nos tirar algumas fotografias. E D. Preciosa que é da espécie que tem brio naquilo que faz, desata a proclamar a sua cantoria de garra, enquanto eu sorrio inundada de tudo.

Com o atraso nem me lembrei de tentar a minha sorte, e mesmo sem moedas nos bolsos e com a certeza que a palavra riqueza, nada tem a ver com a energia do dinheiro, foi trocado o mais importante. Tocar de perto, a ternura de menina que a D. Preciosa ainda guarda.

Assim, como quem ganha a  sorte grande.