Paulo Lobo, o homem que mudou o Porto


O marcante percurso de Paulo Lobo conta já com vinte cinco anos de carreira e é com certeza também à sua assinatura que se deve a velocidade do bom crescimento de muitos dos espaços de lazer do Porto. A ele se devem muitos dos interiores extraordinários de restaurantes como o Buhle – aclamado pela revista Wallpapper – o Shis ou o Cafeina. Ainda o Porto Palácio Hotel, o recente bar Twin’s na Baixa, o Faz Gostos ou o recém inaugurado Solar do Vinho do Porto em Lisboa.

O céu rasgava-se a tons de cinzento e azul sustentados pela beleza da Alfandega do Porto. Mesmo em frente ao edifício com o mesmo nome e que receberia o Portugal Fashion nesses dias, Paulo Lobo recebeu-me no seu novo atelier. O chão move-me os passos sobre as pedras da rua e toco à campainha. A porta abre-se sobre as arcadas e descubro a imensidão do antigo armazém de químicos que Paulo Lobo recuperou em imaculados tons de branco. Os tijolos de alvenaria postos a salvo mantêm o pulsar do edifício e nesta grande entrada somos captados pelo espaço vazio mas que nos convida a um outro mundo, onde todas as formas terão liberdade para se desenvolverem sem mácula. Uma parede de toros de madeira do lado direito contrastam com a pureza do espaço e se numa primeira impressão poderíamos imaginar uma sensação de frio, os troncos terão o seu fim destinado à lareira da sala de estar do primeiro andar, onde Paulo Lobo tanto gosta de estar sempre que pode entregar-se aos seus momentos mais serenos.
As escadas conduzem-me à sala de estar. Um canapé de artesanato urbano tailandês salta à vista na imensidão do branco. Em folhas de ananás de várias cores o canapé pelas suas formas e explosões de cores enche o espaço que contrasta com os candeeiros Royal da marca espanhola Dad, que já fazem parte da assinatura do designer. Um espelho, uma poltrona um sofá e um candeeiro da holandesa Moooi cobrem o espaço de peças únicas, singulares.
Paulo Lobo recebe-me com a simplicidade discreta que define a sua personalidade e é na sua sagrada sala de reuniões que iniciamos a viagem aos seus vinte e cinco anos de carreira, folheando revistas que atravessam continentes e que em caracteres asiáticos falam bem do seu trabalho. A equipa projecta e trabalha numa sala forrada a livros e catálogos presentes na luz que chega da margem do rio.

Os telefones não param de tocar. Paulo Lobo foi convidado para tomar conta dos interiores do lindo edifício da Alfandega que inaugurará nessa noite o Portugal Fashion. Gruas espreitam às janelas para descarregar materiais para a grande noite. Continuamos a nossa conversa atravessando a rua. “A entrada é resistente até a Muammar Kadafi” confessa-me a rir enquanto me explica todo o conceito da entrada com muros de sacos de serapilheira. “Tínhamos pouco tempo e foi o possível para criar forte impacto a baixo custo”. O resultado é surpreendente e as luzes à noite iluminarão o mais importante evento de moda na cidade do Porto. Percorremos vários espaços até chegar à sala do primeiro andar que exibirá o desfile da dupla Alves Gonçalves nessa noite. O efeito é cénico. Simplicidade e materiais ligados à natureza constroem a boca de cena. Desta vez e por irreverência “irei sentar os VIP’s em sacos de serapilheira e darei as almofadas às filas comuns”. O mesmo irá acontecer na passerelle, que “será de madeira tal como as estruturas que cruzam os troncos ao alto”. Observo a equipa imensa de um lado para o outro e questiono sobre as horas que faltam para a inauguração. “Vai estar pronto, esta equipa trabalha bem”.

Numa manhã que se transforma em chamadas de Sol rasgamos agora as ruas do Porto até ao seu novo projeto, a Lobo Taste. No caminho Paulo vai partilhando a sua cidade, a qual defende que “é uma morada onde se sabe receber, sabe-se trabalhar e sabe-se fazer”. No Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, num edifício histórico da Baixa um enorme selo de Paulo Lobo estampa o edifício. Em co-autoria com a sua mulher Paula, Paulo Lobo eleva o design português com produtos que além da sua assinatura nos transportam ao valor do artesanato português aplicado a formas minimalistas. Mais um bom exemplo do projeto humanidade, espalhados num edifício de dois pisos de pé direito muito alto e que transpira uma nova dimensão do nosso artesanato. Trazidos de todo o país, de Norte a Sul, nos produtos é possível ver os tradicionais cestos de palha agora com uma tampa metalizada. A coleção completa-se com chapéus de feltro e de palhinha, mantas, tabuleiros, candeeiros, jarras de vidro em vias de extinção da Marinha Grande, caixas de madeira, ou os famosos candeeiros de estante Bibliotek à espera de nova reedição, tal foi o sucesso que tiveram. Ainda há espaço para peças internacionais como o Wooden Rádio da Indonésia. “It takes 16 hours to create a fine rádio” que ajudam a população de Temaggung no centro de Java. Na sua companhia um candeeiro de leitura dinamarquês que respira a simplicidade de todo este projeto ao gosto de Paulo Lobo.

À hora de almoço e (retirar) atravessamos a rua. No largo de São Domingos espera-nos o seu mais recente projeto, o Tea Point, um ponto de encontro para o chá mas também para refeições do dia. Como filha de um alfarrabista a pergunta salta-me à vista: “porque estão a lombadas dos livros nas prateleiras ao contrário?” São estes pormenores, sempre inesperados e provocantes que constroem a assinatura de Paulo Lobo. A imagem reflecte-se num tom de marfim imaculado pelas folhas das páginas na curiosidade de procurar as lombadas escondidas, assim como nos enormes cadernos para as crianças desenharem e escreverem no fundo da sala. Há chá e scones mas há também sopa do dia, tarte de batata com chévre e salada e (colocar espaço) mousse de chocolate caseira. A trezentos quilómetros e a celebrar sessenta e cinco anos de existência, o Solar do Vinho do Porto, em Lisboa. Um azul forte abraçam os azulejos do século XVIII na sala de provas ou um verde inglês no salão principal foram as escolhas para fazer deste espaço à beira do Chiado também uma morada para encontro entre amigos.

Muita coisa inspira as criações de Paulo Lobo, “música, moda, craft e handmade, mas sobretudo a cidade”. No grande sentido de missão é urgente “renovar, actualizar, saber utilizar a mão-de-obra e as técnicas artesanais sem nunca descuidar a essência da alma original”. Talvez por isso se sinta fascinado com “a tranquilidade do Douro ou da Costa Alentejana”. Sobre os seus projetos “contidos, charmosos mas sempre provocantes” confessa-me que o “envolvimento é sempre emocionante, e há projetos perfeitos… quando o cliente é perfeito”. Os seus momentos mais puros vive-os em Paço no Norte de Portugal, enquanto os seus espaços de Lisboa e Porto, se inundam de pessoas que se encontram para testemunhar a imensidão prodigiosa da sua criatividade.

crónica ‘Pelas ruas da cidade’ publicada na edição de Fevereiro de 2010 na GQ