Sempre que passo à frente do número trinta da Rua Domingos Sequeira continuo a envergonhar-me das nódoas da minha cidade. O Cinema Paris vai-se degradando de dia para dia e parece não ter fim a tristeza de ver um edifício tão especial de Lisboa neste estado. Jurisdições à parte espero que não se arquive na pasta das passividades sem perdão e que mesmo tarde mas a tempo, se faça justiça ao projecto do Arquitecto Carvalho Piloto, inaugurado em 1931.

Em Novembro de 2007 também o cinema Quarteto foi fechado pela Inspecção-Geral das Actividades Culturais, por falta de sistema de prevenção de incêndios e presença de inflamáveis. Esta carismática sala da sétima arte lisboeta, que curiosamente tem a mesma idade que eu, tinha reabertura prevista para Dezembro. A mesma exigia a realização de obras mas o fundador Pedro Bandeira Freire, não o conseguiu antes do céu o receber no passado dia 16 de Abril.

Não o conheci pessoalmente, mas deixo nestas linhas uma homenagem a um amante da sétima arte que não teve tempo de ver enaltecido o seu sonho, de preservar uma das salas de cinema alternativo da capital.
As cidades serão sempre feitas de pessoas e observar as que lutam tanto, sempre em menor quantidade do que as que vivem em passividade originará com certeza uma cidade mais lenta, perdendo assim lugares do pódio onde habitam as Barcelonas deste mundo.

Neste cenário resta-nos o King, que já se sente ameaçado pela possível garagem do Hotel Lutécia.
Reflictamos então sobre os detalhes que destroem ou constroem as cidades, e consciencializemos que portugueses de rasgo continuam a precisar-se.

coluna de opinião publicada a 5 de Maio de 2008 no jornal Meia Hora