As a curator of the best of Portugal and World traveller, with more than twenty years of articles published, in the national and international press, and also as a TV Show Author, this is my digital magazine, where I present my curated experiences  and travel collection.

Sancha D’Oriol Trindade

O ‘Teatro do meu Mundo’

A sério que peço desculpa. Porque gostava de me clonar. Uma fazia a vida normal, corria uma hora por dia, divulgava as nossas cidades, amava o mundo, e postava tudo aquilo que tanto quero partilhar e a outra dedicava-se inteiramente ao Mestrado. Dormia, ia às aulas e lia. Lia muito. A minha mesa-de-cabeceira mais parece uma Torre de Babel…ou qualquer dia a Torre de Pizza. E devoraria as páginas soltas ávida de sabedoria e feliz ficaria estasiada por uma das melhores companhias do mundo, os amigos silenciosos, como chamo aos livros que escolho para mergulhar.

Não estou a dar conta do recado e isso angustia-me. Já me avisaram que é ambicioso, mas se não for agora quando será? Tenho um conceito de vida presente. A vida é hoje. É este mesmo momento em que as minhas pontas dos dedos tocam nas teclas. Há sempre desculpas e se quisesse arranjava-as. Mas é mais forte do que eu. O tempo é curto, os dias fogem e só vale a pena cá estarmos na senda da evolução, por isso e de cara a cara com a minha consciência, não tenho escolha. Tenho de ir em frente. E não nunca fui de desistir.

Mas peço desculpa por não conseguir dar resposta a tudo. A todos os desconhecidos e amigos que me pedem ajuda, a todos os acontecimentos na minha cidade e a todas as horas de sol que ando a perder na minha cidade. E a partilha. A importância da partilha que à terça feira só consegue uma noite tardia.
Já só vejo televisão ‘on demand’ e entre o Downton Abbey, o Imagens de Marca, o Tempos de Mudança e o Jornal da Noite da Sic, acumulo gravações para um oitavo dia que nasça nem que seja no meu imaginário.

Este ano foi um ano bonito, um ano onde tive de dar o litro e mesmo operada seis vezes e a fazer concessões que muito me custaram, cá estou de coluna vertebral e pescoço erguido. Mas não se iludam… tem muita escola de esforço nos bastidores. Doeu ver que os que marcaram ausência se tinham aproximado por razões menos dignas do meu dicionário. Que o universo me dê a graça de acompanhar o ritmo e no meu pedido de desculpas de no dia de hoje só conseguir postar a esta hora, aqui vos deixo um poema de Gedeão, que um homem sábio me ofereceu nas entrelinhas do dia.

Não me chamo Luísa, nem vos escrevo da Calçada do Carriche, mas o poema merece todas as moradas do mundo. Porque alguém aí desse lado, talvez se identifique com a frustração dos dias claros e clarividentes, em que imaginamos abraçar a imensidão do tempo, esse cúmplice das veias que nunca pára. Apenas passa.

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, in ‘Teatro do Mundo’