Nas margens de um coração indivisível

Há ‘um oceano de tempo’ desde que recebo as palavras de Valdemar Cruz até as partilhar nesta plataforma Atlântica. É numa tarde no escritório onde me consumo pela velocidade, que um Mensageiro obriga-me a parar. No texto lindíssimo tropeço neste tesouro, que ainda hoje me comove. Pelo “sofrimento indizível” a quem também já perdeu duas das traves mestras, mas na admiração de um grande homem, que marcou para sempre, o humilde início de uma carreira.

Ainda estudava quando (também) num “espírito radicalmente livre” me predispus a entrevistar o grande Arquitecto. Com a partida de quem me deu à luz, a arrumar a casa de família, tropecei nas linhas vintage das cassetes dessa entrevista. Lembro-me como se fosse hoje. Sempre vivi num “mundo libertário”, sem impossíveis e lembro-me que sombras à minha volta me diziam que jamais o conseguiria. Marquei a entrevista pelo telefone. Seria estranhamente num evento católico. Muitos me conheciam. Nesse dia, com vinte e poucos anos, quando me aproximei, apenas para dizer que era eu ‘a entrevistadora’, os rostos, os tais que eu conhecia, afastaram-me para não incomodar o senhor Arquitecto. Foi aí que Siza Vieira parou. Sorriu olhou-me nos olhos e disse que falaríamos depois da palestra. Sem me dar conta estudantes e curiosos colaram-se à ondulação da nossa conversa. Nesse dia gravei as suas pautadas e sábias palavras. Mas gravei também, e para sempre, a sua generosa simplicidade.

Reconheço-me nas emoções da sua filha Joana, sempre que fala da Mãe. E passados alguns dias de ter recebido esta carta por um Mensageiro, não quis deixar de a passar também nesta plataforma. Desconhecia o tesouro. E é neste preciso momento que volto a confirmar, plena da missão, mas sobretudo do privilégio, do que é, e do que foi estar incondicionalmente ao lado de alguém que decide partir.

Afinal há sempre um precipício. Na pele. Mas também na alma. E é também essa, uma das mais nobres condições humanas. A de que afinal é também nas nossas mais profundas perdas, que construimos, construiremos sempre, a mais bela humanidade.

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OS MISTÉRIOS DE MARIA ANTÓNIA

Desenhava como ninguém e morreu aos 32 anos nos braços de Álvaro Siza. O arquiteto assumiu uma viuvez eterna, com as causas da morte a alimentarem especulações. O Expresso conta pela primeira vez a história da mulher cuja obra chega agora à Gulbenkian.
texto de Valdemar Cruz

No final daquela madrugada amanhece a eternidade de uma dor indizível. Numa cama, uma mulher. Um rosto ausente. Um olhar vazio. Na mesma cama, um homem. O sobressalto do despertar. O olhar perplexo. O alvoroço do inesperado. Ela, prostrada. Pela face escorre-lhe um débil fio púrpura. Já não é deste mundo. Ele, petrificado. Já o mundo se lhe desmorona. Ainda lhe pressente um último suspiro. Tenta agarrar as frágeis réstias de esperança. É tarde. É o fim. São os gritos abafados. É o adeus absoluto aos sorrisos, às graças, às poses arrebatadas, aos esmorecimentos, aos dramas do quotidiano, aos dias de criação febril, aos geniais desenhos de um mundo outro criados por Maria Antónia Siza. Tem 32 anos. Morre às 6h30 da manhã do dia 11 de janeiro de 1973. Álvaro Siza Vieira segura-a naqueles instantes finais. É o horror. É a desmesura da mágoa. É tarde. É infinitamente tarde.

São passados 43 anos desde aquela manhã cravada na memória de quantos tiveram a oportunidade de conviver com a singular personalidade de Totó, como lhe chamavam os mais chegados. Há todo um oceano de tempo, de acontecimentos, de vivências a separar aquele dia final de quem hoje a recorda. Há todo um mundo de silêncios, de não ditos, ao longo dos anos construídos à volta das circunstâncias de morte de uma mulher capaz de irromper numa sala como um furacão. Não deixava ninguém indiferente. Podia, até, ser inconveniente. Podia criar embaraços. Não podia jamais deixar de ser a personificação de um estranho sentido de liberdade numa época marcada por medos. Havia em Maria Antónia um invejável lado solar capaz de contagiar de alegria quem com ela compartilhava vivências. Se estava bem, desenhava a um ritmo quase febril. Cada desenho nascia de um risco só. De um único movimento. Sem estudos prévios. Sem rasuras. Com uma rara noção e um inusitado controlo da imagem. Desenhava contra todas as regras estabelecidas pela ortodoxia. Desenhava como ninguém. O reverso plasmava-se nos momentos de ausência. Afundava-se no lado escuro da lua. Uma fronteira difícil de perceber e acompanhar. Desistia do desenho. Desistia da alegria. Parecia desistir dos outros.
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No deserto do Sara com o marido e um pneu furado

A morte inesperada de uma mulher jovem, a abarrotar de talento, conhecida pela sua beleza, atormentada por algumas patologias, também do foro psicológico, na sequência de um trauma pós-parto, depressa se transforma em campo fértil para o nascimento de um mito urbano ainda hoje não desfeito. Aos olhos de importantes franjas de amigos e conhecidos, Maria Antónia ter-se-ia suicidado. A pergunta, sussurrada, às vezes colocada com um misto de timidez e curiosidade própria da devassa, desabava a cada instante nas múltiplas conversas necessárias à concretização desta viagem aos percursos e aos mistérios de uma mulher perdida na circunstância de, afinal, ter nascido antes de tempo.
Falar de Maria Antónia transforma-se numa espécie de interdito e Siza projeta a imagem de um homem só, atingido por um sofrimento indizível
Com 40 anos à data da morte da mulher, Álvaro Siza assume uma “viuvez eterna”, nas palavras de um dos grandes amigos do casal, Carlos Morais, um ex-engenheiro civil do LNEC, agora psicoterapeuta psicoanalítico com consultório no Chiado, em Lisboa. “A força anímica, afetiva e emocional da Totó era tão grande, que ele a acha irrepetível”, revela.

Falar de Maria Antónia torna-se uma espécie de interdito e Siza projeta a imagem de um homem só, atingido por um sofrimento indizível. Não por acaso, passam anos desde o primeiro momento em que lhe sugerimos a ideia deste trabalho, de modo a proporcionar a divulgação de uma obra no essencial desconhecida. Apesar de ter deixado mais de mil desenhos e uns tantos quadros a óleo, em vida expôs uma única vez, em 1970, na Árvore. Em novembro de 2002, um conjunto de acasos proporcionou uma segunda mostra dos seus desenhos na cooperativa portuense, de seguida apresentados no Círculo de Belas Artes, em Madrid. Depois, e de novo, o silêncio.

Há pelo menos uma explicação. Se o abordávamos e o tema passava por Maria Antónia, Álvaro Siza não conseguia deixar de expressar o quanto lhe seria “doloroso”, bem como para os filhos, regressar a estas memórias. “É prematuro”, insistia. Até por ser “impossível falar da obra sem falar da pessoa”. Há uns meses algo mudou. Depois de nova abordagem, vai pela primeira vez um pouco mais longe e adianta terem sido os anos finais de Totó “muito dramáticos”. Após o nascimento da filha, Joana, “desenvolveu uma neurose pós-parto, que acontece muitas vezes, mas no caso dela teve uma evolução má. Tinha períodos de estar muito bem e, depois, entrava numa depressão grande”. Por tudo isso, acrescentava, “é muito difícil e pode ser um choque grande”.

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Férias em Marrocos

O pudor determina a opção do arquiteto. Há uma obrigação de decoro na abordagem de um drama familiar com sequelas inimagináveis para quem não as vive. “O apoio das duas avós foi essencial, mas há uma coisa que é insubstituível. A mãe faz uma falta que nem se imagina”, virá a dizer mais tarde Álvaro Siza, num domingo de manhã, durante uma rara conversa tida na solidão do seu escritório com vista para a serenidade das águas do Douro.

A oportunidade para avançar coincide com uma outra importante decisão do arquiteto. Na sequência da definição de destinos para o seu espólio, dividido entre o Centro Canadiano de Arquitetura, em Montreal, a Fundação de Serralves e a Fundação Gulbenkian, Siza opta por iniciar o processo — em curso — de doação de uma centena de desenhos de Maria Antónia ao Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Estávamos no final de julho e, para alegria depois manifestada pelos filhos, abre-se à possibilidade de ser lançado um olhar sobre a vida e a obra da mulher, nascida a 25 de maio de 1940 na Avenida da Boavista.

“Que maravilha, ainda bem que se vai falar da minha mãe”, são as primeiras palavras de Joana, 51 anos, a segunda filha do casal Siza, mal inicia uma conversa à volta das memórias de alguém para quem aquela figura é sobretudo o resultado da reconstrução de algumas memórias pessoais com as narrativas por outros proporcionadas. Não obstante ter apenas 8 anos à data da morte, Joana assegura ter “assistido à dor mais funda” da mãe.

O filho mais velho, Álvaro, 53 anos, hoje um arquiteto com uma obra muito relevante, tinha 10 anos e recorda a evocação do drama com a naturalidade de quem sabe que “todas as pessoas tiveram uma história”. Também ele sente como que um alívio por esta espécie de cair de muros para, de forma descomplexada, se falar de uma mulher cuja obra admira e sente merecer maior divulgação, desde logo pela imensidão de sentimentos expressos através dos desenhos.
Maria Antónia nasce oito anos após o casamento dos pais, Alberto Leite, empregado de escritório, apreciador de arte e pintor nas horas vagas, e Maria Luísa Marinho, filha e neta de industriais têxteis. A irmã, Luísa Marinho, quatro anos mais velha, recorda-se de uma Totó “vivaça, muito expansiva”, mas a quem desde nascença fora detetado um leve sopro cardíaco. Com uma educação austera e um ambiente familiar muito marcado pelos anos da II Guerra Mundial, Maria Antónia, tal como as irmãs, começa por frequentar o Colégio Nossa Senhora do Rosário, propriedade do Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria em Portugal. Passa depois como interna pelo Colégio do Sardão, em Oliveira do Douro, Vila Nova de Gaia, pertencente ao Instituto das Irmãs de Santa Doroteia. Frequenta ainda o Liceu Carolina Michaelis.

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Férias em Caminha, com Siza, a filha Joana e os Soutinho

A infância e adolescência decorrem no ambiente próprio de uma família grande e com posses. Terminado o ano escolar, o tempo reparte-se entre os quase três meses de férias nas praias da Foz, com passagens, a partir de 1945, e sempre em setembro, por uma casa de férias comprada pelo pai a umas centenas de metros do início da escadaria do Bom Jesus, em Braga.

Aos 17 anos entra na Escola de Belas Artes e é todo um novo caminho a abrir-se para uma jovem oriunda de uma família conservadora, marcada por uma grande religiosidade e pouco disponível para aceitar a abertura nos costumes. À época bastava ter o então 5º ano dos liceus, atual 9º ano, para aceder a uma escola onde começavam a cruzar-se jovens das mais diversas proveniências destinados a marcarem a segunda metade do século XX português, na pintura, na escultura ou na arquitetura. José Rodrigues, Ângelo de Sousa, Armando Alves, Álvaro Siza, Alves Costa, Jorge Pinheiro, José Grade, entre outros. Partilha o ritmo escolar com grandes amigas, como Luísa Brandão, e tanta gente responsável por um ambiente sem paralelo, muito incentivado pelo diretor da escola, Carlos Ramos. Luísa, a irmã, também já lá andava e fazia inclusive parte de uma comissão de receção dos caloiros.

Maria Antónia dá nas vistas mal chega. Desde logo pela sua beleza. Depois, pela qualidade do desenho. Ainda no primeiro ano, Carlos Ramos chama-a por ter visto um dos seus trabalhos, felicita-a e vaticina-lhe: se continuar assim, vai muito longe. “Foi uma coisa que lhe deu muita satisfação e muito entusiasmo”, admite Siza.

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Em Fão, com Alvarinho, ao centro, Laura Soutinho a pentear-se e Rui Leal e Júlio Ansiães à direita

Nem sempre são fáceis os caminhos para quem ousa desviar-se da norma ou dos consensos estabelecidos. É de novo o arquiteto a recordar um episódio ocorrido num outro ano, aquando da habitual exposição de trabalhos dos alunos na Aula Magna. Tratava-se de um momento importante da escola, com discurso do diretor e elaboração de um catálogo. Dessa vez, Maria Antónia não tem nenhum desenho selecionado e o já namorado, Álvaro Siza, mais velho sete anos, resolve questionar um dos responsáveis pela escolha. “O que me foi dito é que saía do espírito da exposição. Realmente saía. Era melhor”, comenta com cáustica ironia.

Em boa verdade, a questão, diz agora, “nem era ser melhor ou não. Houve uma fase em que na linha da frente estava o abstrato. Isso ela nunca fez. Tinha uma especial atenção pelo corpo. Na maior parte daqueles desenhos não há paisagem. É o corpo. Ambiente há, mas por outro meio”. Caso tivesse vivido mais tempo, poderia ter tido grande notoriedade. Tanto mais que, constata, “poucos anos depois aparece a Paula Rego, por exemplo. O figurativo, na altura dela considerado uma coisa do passado, volta” e ganha nova cidadania.

Luísa Brandão, arquiteta, madrinha do primeiro filho do casal Siza, Álvaro, como o pai, para sempre Alvarinho para os mais chegados, toda a vida terá conhecido Maria Antónia, em particular dos tempos da Foz, onde a neta do industrial têxtil passava grandes temporadas de praia. Nas Belas Artes aprofundam a amizade e Luísa, que chega a ser casada com Alexandre Alves Costa, assegura que Totó podia, se quisesse, ser a melhor aluna do curso. Porém, não aspirava, sequer “a ser uma grande artista”. Era “genial a desenhar, mas tinha problemas porque muitas vezes não conseguia acabar as coisas”. A relação com os professores era paradoxal. Segundo Luísa, “não faziam dela o que queriam. Ela é que desenhava como queria e não se deixava levar por ninguém”.

Seria um espírito indomável. De alguma forma assim a recorda Alves Costa, apesar de vir “de uma família muito castradora e conservadora”. Luísa, a irmã, discorda. “Era apenas uma questão de proteção”, garante. Ainda assim, Totó toma conta do seu destino. “Se a prendiam em casa, fugia”, assegura o arquiteto.

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Maria Antónia dá nas vistas mal chega à Escola de Belas Artes. Desde logo pela sua beleza, depois pela qualidade do desenho, realçada pelo diretor Carlos Ramos

António Carlos, 78 anos, irmão de Siza, quatro anos mais novo, conhecia-a desde a frequência do liceu, e fala também de uma Maria Antónia “a reagir contra o espírito burguês das grandes famílias, de que era originária”. Assume-se “convencido que essa foi uma das causas dos seus problemas”, até pelas muitas inquietações religiosas que a atormentavam, reconhecidas pela irmã quando admite a existência desse desassossego “desde a adolescência”. António Carlos vai mais longe e garante que a cunhada tinha “o terror de morrer em pecado. O peso da educação religiosa era uma coisa tenebrosa naquele tempo”, sublinha. Luísa Brandão relembra também uma amiga “dominada pelo medo religioso” e frequentadora assídua das missas dominicais.

Ao evocar o início do namoro, nas Belas Artes, e o posterior casamento, Álvaro admite ter sido cativado pela beleza, “mas também pelo temperamento” daquele “espírito radicalmente livre”. Introvertido, o jovem arquiteto não era de festas. Maria Antónia transforma-o por completo. Siza passa a ter uma vida “que não tinha antes de maneira nenhuma. Havia festas e dançava-se. Tudo o contrário do que era a minha personalidade”. Muito viva, extrovertida, com muito humor, Maria Antónia, recorda, “se estava nos seus dias, entrava numa sala e enchia a sala, enquanto eu, entrando, não enchia coisa nenhuma”. Olha para trás e reconhece ter-se adaptado “muito bem àquela vida”. Considerava-se “um bicho do buraco” e, constata, “nas relações que depois perduraram, algumas vinham de amizades dela”.

Começam por viver juntos, em 1961, na agora Rua Arquiteto Marques da Silva, na zona do Bom Sucesso. Pagam 750 escudos de renda mensal e cinco anos volvidos mudam-se para a zona de Francos, ainda assim nas imediações da Boavista. Alvarinho já nascera, mas o ambiente “era tristíssimo. Não havia nada à volta e tudo era longe”. Maria Antónia sente-se muito isolada e não aguentam lá mais de três meses.

O apelo à mudança é potenciado pela circunstância de vários amigos, arquitetos e pintores, terem ido viver para os novos e excelentes prédios do chamado “Lima 5”, da autoria de José Carlos Loureiro e Pádua Ramos, situados entre as ruas da Alegria e da Constituição. Embora o ponto de partida tenha sido marcado por enormes dificuldades, Álvaro Siza acaba por ficar lá mais de 40 anos, até por ter o escritório na Rua da Alegria. A renda, demasiado elevada (1100 escudos mensais) para os rendimentos da época, atormentava-o por permanecer a dúvida sobre como aguentariam aquele esforço financeiro.

O que de início parecia uma decisão de grande risco, transforma-se com o tempo numa afortunada escolha. Ali lhe morre a mulher, é certo. Mas ali são criados os filhos. Ali recebe o apoio permanente e solidário dos amigos. Laura Soutinho, mulher do recentemente falecido Alcino Soutinho, sempre na primeira linha daquele suporte, também lá vivia e realça o papel daquela “espécie de ilha dos arquitetos” como uma comunidade crucial para Totó enquanto lá viveu e decisiva, depois, no acompanhamento solidário de uma família destroçada.

É um grupo muito unido, embora não fechado, e com um enorme desejo de viagem. Uma das mais marcantes e hoje mítica tem como destino Marrocos, ao ponto de 44 anos depois, em dezembro de 2011, ter sido lançado no Palacete Pinto Leite, no Porto, a abarrotar de gente, o livro “Marrocos 1967”, assinado por Alexandre Alves Costa e Álvaro Siza, e editado pela Circo de Ideias.

Maria Antónia já fora a Paris de comboio, aos 17 anos, com a irmã. Antes viajara apenas até Santiago de Compostela, na companhia dos pais. Nesse dia, sem saber do futuro, cruza-se, sem estabelecer contacto, com o homem com quem virá a partilhar a parte decisiva da sua breve existência. Álvaro coincidira naquele dia em Santiago, também acompanhado dos pais. Todavia, é a viagem a Marrocos a tornar-se marcante para todos quantos nela participam.

São mais de 20 dias a viajar de automóvel tornados lendários pelas peripécias vividas. Luísa Brandão vai grávida e Totó apresenta já algumas dificuldades em dormir. Distribuídos por um Renault 4L e por um Fiat 850, partem sete jovens à procura do diferente proporcionado pelo outro. Siza leva “o pior carro” da sua vida, um Fiat 850, ao ponto de já em Marrocos, ter pensado desistir. Nele seguiam a mulher e o também arquiteto José Grade. O Renault levava Alves Costa e Luísa, além de Sérgio Fernandez e uma jovem sueca. Não lhes interessava apenas a arquitetura das cidades imperiais. Queriam o encontro com as gentes e as culturas.

Os passeios à época, eram curtos. Ficavam-se quase sempre por Portugal e Espanha. Não havia dinheiro para mais. Com a escola, Siza acaba por ir à Finlândia em 1968. Totó fica no Porto, entre outras razões, sugere a arquiteta Cecília Cavaca, por ter medo de viajar de avião. Lembra uma anterior incursão em Itália, durante um mês e fala dos grupos grandes que se constituíam para estes percursos, com, além deles próprios e de Siza, Fernando Távora, os Soutinho, Sérgio Fernandez, Rolando Torgal, Alves Costa e outros.

Rogério e Cecília Cavaca, mais novos, integram o grupo apenas a partir de 1965. Quando a conhecem, Totó acabara de sair de um tratamento da neurose pós-parto. “Na verdade nunca terá acabado”, diz Cecília. Segundo conta, “tomava estimulantes para estar bem disposta e outros comprimidos para dormir”, com alguns medicamentos a virem de Inglaterra.

Há demasiados transtornos a abatê-la. Mais de uma vez impõe-se a necessidade de ser internada. Carlos Morais, porventura a pessoa com quem mais Totó se terá correspondido, até por viver em Lisboa, sentia-a demasiado condicionada pelo facto de se ver obrigada a “tomar medicamentos em excesso. Sucessivamente foi ficando muito fora do circuito, fora da ação”. Tinha períodos de letargia. Quando regressava, quando o humor se lhe tornava um estado natural, era outra.

A diferença de atitude fica patente na muita correspondência travada entre ambos. Fala de cinema, dos filmes da vida, da paixão por Luchino Visconti. Numa das cartas revela um entusiasmo desmesurado por um disco acabado de comprar. É o famoso “Time Out”, de Dave Brubeck. “É bom demais. Leva-me às nuvens”, escreve. Numa outra correspondência anuncia a Carlos, ele próprio um grande cinéfilo, ter visto o segundo melhor filme da sua vida; opinião, esclarece, partilhada por Álvaro. No pedestal está “Cidadão Kane”, de Orson Welles. Segue-se “Salvatore Giuliano”, um filme sobre a Mafia siciliana realizado em 1962 por Francesco Rosi. “Nunca vi tão bom”, exclama. Logo de seguida, um comentário feito de uma deliciosa ironia: “Depois deste filme só tive uma conclusão a tirar: O Salazar não pode ser doutra coisa senão da Mafia. Se não é, porque é que ainda não lhe atiraram com uma bomba?”

Numa carta escrita após um longo período de silêncio narra uma viagem a Londres e o insólito de ter Siza a medir “10 milhões de casas palmo a palmo”, por ser essa a sua forma de ver arquitetura. Escreve sobre os filhos, “duas crianças felizes que passaram a minha doença horrorosa sem imagens traumatizantes” e conclui a desculpar-se. É-lhe difícil escrever por tremer “imenso da mão. Por causa disso é que não tenho podido pintar, o que para mim é horroroso”.

Nos melhores momentos, o desenho, de quando em vez a pintura, surgem-lhe como uma salvação. Numa carta para Carlos datada de 25 de outubro de 1967 refere: “Além de a minha costumada verve ter perdido o brilho, acabei agora de fazer um desenho que me deu cabo da cabeça.”

Os desenhos, diz-nos agora Siza, mesmo após longas paragens, “surgiam como se tivesse treinado todo o tempo. Era o que mais o espantava”. Laura Soutinho enfatiza o facto de Totó desenhar por puro prazer, sem qualquer preocupação de carreira. “Pegava numa caneta, começava pelos pés e desenhava num plano só. Não parava. Só interrompia para assinar”, mas até isso raras vezes acontecia. Utilizava uma técnica, diz Álvaro, desenvolvida ao arrepio “de todas as regras ortodoxas. É muito difícil. Há as proporções gerais do corpo. Se se começa por um pé, por um dedo, facilmente se falha nas proporções. Há muita gente que esbarra quando chega aos pés ou às mãos”.

Com uma exigência total e uma invulgar intuição crítica, não falhava. Começava e, ou tudo saía a seus olhos perfeito à primeira, ou rasgava. Amarrotava. Deitava fora. Era de igual modo genial na gravura, como a todos espantava com a riqueza dos seus bordados. Chega a contratar uma bordadeira para concretizar os desenhos e acaba também por os expor na Árvore. Eram lindíssimos, diz quem os viu. Quando convidado por Maria Antónia a escolher um dos seus trabalhos expostos na cooperativa, o pintor Luís Noronha da Costa terá surpreendido ao optar, precisamente, por um dos bordados.

Taxativo ao assegurar nunca ter visto ninguém desenhar assim, Alexandre Alves Costa revela haver ali, naquela de quem diz ter sido a mulher mais interessante que conheceu, “algo fora do normal, o que dava um carácter quase surrealista às coisas que desenhava”. Apresentava um mundo “pelo menos estranho”. Inventou um mundo novo. “Um mundo libertário, muito sensual, muito físico” e de igual modo perturbante. Ao ponto de, assegura, possuir algumas pinturas dela que não se atreve a colocar na parede.

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José Luís Porfírio, crítico de arte do Expresso, recorda o primeiro contacto com a obra, acontecido por acaso na mostra de 2002. Ao entrar na sala da cooperativa Árvore vê “um corpo meio desfeito, uns olhos em espiral” e percebe logo estar num território diferente. Tudo aquilo, diz, “está no limite da expressão” e há comparações que podem ser feitas com um expressionista como Mário Eloy. “Há alguns desenhos que parece que implodem, tal como alguns desenhos da velhice de Picasso”. Ao olhar para as figuras mais estilizadas ocorre-lhe a comparação com Leonor Fini (1908-1996), pintora surrealista nascida na Argentina filha de mãe italiana e com obra espalhada por importantes museus de quase todo o mundo.

Há nos desenhos de Maria Antónia um lado de exceção que muito lhe interessa, e não tanto “a pessoa que só desenha muito bem”. Percebe-se “que há ali um drama”, prossegue. Para o crítico, a artista, “estava presa dentro da própria cabeça e representa uma singularidade”. Porfírio revela-se convencido de que Maria Antónia “e os seus desenhos terão sido um enigma para Álvaro Siza”. O sofrimento “que os desenhos dela representam merece respeito”, sustenta.

Espírito “radicalmente livre”, sem preocupação de carreira, pegava “numa caneta, começava pelos pés e desenhava num plano só”, contra todas 
a regras

Ao embrenhar-se naquele mundo criado por Maria Antónia, Bernardo Pinto de Almeida, crítico de arte, autor do texto inserido no catálogo da exposição na Árvore depara-se com “uma artista que apesar de ter morrido muito jovem, tinha uma obra fulgurante”. A ter continuado, diz, “teria sido um momento referencial naquele período em que na sequência do modernismo apareciam no Porto Ângelo de Sousa, Jorge Pinheiro, António Quadros, os 4 Vintes, e na arquitetura o Alcino Soutinho, o Alves Costa, o Álvaro Siza”.

Para lá do domínio técnico, os desenhos, afirma ainda Bernardo, “exprimem um universo psicológico e estético que faz dela uma artista muito próxima de uma raiz expressionista, que na arte portuguesa não chegou a ter o reconhecimento suficiente”. Álvaro Siza concorda. “São figuras muito fortes. Há um expressionismo evidente. Alguns desenhos são mesmo violentos. Outros são dramáticos, mas essa não foi sempre a sua opção.” Por vezes entretinha-se a desenhar para os filhos e tudo era diferente.

EXPRESSÃO A violência expressa na obra da jovem e bela Totó, aquela quase raiva expressionista, só com muita dificuldade poderia ter conquistado reconhecimento numa arte portuguesa pacificada à força
A violência expressa na obra, aquela quase raiva expressionista, só com muita dificuldade poderia ter conquistado o reconhecimento merecido “numa arte portuguesa pacificada à força por anos de política do espírito”, defende Pinto de Almeida. Em sua opinião, “há uma dimensão erótica, pulsional, de inquirição das formas que o corpo toma, que se constituem como uma grande singularidade no contexto da época”. Siza reforça a ideia da exploração do corpo. Nota a presença de muitas mulheres. “São desenhos intemporais. Normalmente com roupagem cuja época se desconhece. Por trás da roupagem sentem-se perfeitamente os ossos, o esqueleto, o movimento muito bem conseguido.” Ao colocar de lado, por desinteressantes, “níveis de expressão de sofrimento puramente neuróticos”, o crítico de arte chama a atenção para os artistas, como Maria Antónia, “que mercê de um conhecimento da dor, fazem ascender isso a um plano universal. Inscrevem a expressão do sofrimento em algo que é maior que eles”. Fernando Pessoa, Mário Eloy, Domingos Alvarez são outros exemplos paradigmáticos.

Não por acaso, António Carlos, irmão de Álvaro e uma das pessoas que melhor a terá conhecido, olha para os desenhos e quadros dispersos pelo seu andar em Leça da Palmeira e não deixa de continuar a impressionar-se com “todo aquele ambiente barroco, sinistro, misterioso”. Olha de novo e desabafa: “Ela não tinha vivência para fazer a obra que fez.”

Maria Antónia não chega a concluir o curso de pintura. Faltava-lhe, porventura, a capacidade para controlar o quotidiano em que se deixava enredar. Luísa Marinho fala de como lhe era complexo “gerir muitas coisas ao mesmo tempo, ainda por cima com dois filhos. Tinha dificuldade em lidar com tanta responsabilidade e era-lhe tudo muito pesado. Isso deprimia-a”. Cecília Cavaca chama à colação um outro dado essencial. A circunstância de ser mulher, nos anos 60, em Portugal, não era simples, tanto mais que, sublinha, havia a expectativa de que as mulheres “fossem donas de casa brilhantes”, esposas dedicadas e excelsas mães de família.

Ao casar, Álvaro Siza é prevenido pelos familiares de Totó sobre a existência de um “leve problema do coração, de nascença, mas recuperado”. Na verdade, durante grande parte da vida passa bem. Depois, prossegue o arquiteto, começa a ter problemas de sono, inicia um processo de medicação e vai perdendo a alegria. Laura Soutinho lembra-se de a ter grávida de Joana no seu casamento com Alcino. Acontece a depressão pós-parto e nunca mais se liberta. Torna-se vítima do estado de evolução da medicina à época. Na atualidade há outras abordagens, outro tipo de tratamentos passíveis de com relativa facilidade resolver um caso transformado em drama, agudizado pelo alimentar da dúvida sobre se Totó teria procurado um fim provocado por si mesma. O filho, Alvarinho, não hesita em assegurar que tiveram “uma infância feliz”, mas ao crescer sofre o impacto da especulação criada. Decide tirar todas as dúvidas, esclarecidas com o acesso à certidão de óbito, que mais tarde nos é mostrada pela Joana. Regista como causa de morte uma embolia pulmonar. “É certo que tomava muita medicação psiquiátrica, mas a morte decorre dos problemas cardíacos identificados desde a infância”, enfatiza Luísa Marinho.

Os desenhos exprimem um universo psicológico e estético que faz de Maria Antónia “uma artista muito próxima de uma raiz expressionista”

Carlos Morais vê-a pela última vez meses antes do fim. Numa deslocação ao Porto almoçam juntos. Maria Antónia não revela grande vivacidade. Ao despedir-se, beija-o na face e desabafa: “Já viste? O Álvaro vai ser um grande arquiteto e vai ficar viúvo.” Escrito assume uma carga dramática inexistente naquele instante. Isto porque, refere Carlos, embora “sentisse que algo se aproximava, ao mesmo tempo diz isto com humor”.

Naquele dia 11 de janeiro de 1973, pouco após as 6 horas da manhã, toca o telefone em casa dos Soutinho. Do outro lado do fio ouve-se a voz de Álvaro. Parece sibilar a desgraça saída do fundo dos tempos. Ao seu lado, na cama, está Maria Antónia. Morta.

Regressar àquele instante é-lhe ainda doloroso. São, por isso, parcas as palavras. “Foi de madrugada, ao meu lado. Estava a dormir e por acaso acordei ouvindo ainda o último suspiro. Foi duro.”

O espanto e a comoção são gerais. Cecília e Rogério Cavaca lembram-se de a partir de novembro a verem com febres altas. No Natal aparece “muito caída e pouco antes são enviadas umas análises para Inglaterra”. Os resultados chegam apenas dias após o falecimento e traçam um quadro muito negro. Na noite da morte o casal Cavaca prolonga o serão em casa dos Siza até à uma da madrugada. Tudo normal. Na manhã seguinte, bem cedo, desaba-lhes o brutal impacto da notícia.

Alvarinho acompanha o drama. Alguém o leva para casa do arquiteto Rolando Torgo. Depois vai para o tio António Carlos. Joana só mais tarde tem noção de que algo se passa. Está no Colégio Nossa Senhora da Paz, chamam-na, e aparece-lhe a tia freira, irmã do pai. Diz-lhe: “a mãe vai para o céu”. Fica em estado de choque. Deixam-na “numa sala, sozinha, à espera” que a levem. Naquela noite dorme em casa da tia Irene Siza Vieira.

A partir dali há uma outra e imensa história de amizades, de solidariedades, de partilhas. Como dizem Joana e Alvarinho, muita gente se ocupou e preocupou com deles. Desde logo o pai, os avós, os tios, mas também Alcino e Laura Soutinho, bem como Cecília e Rogério Cavaca, ou Luísa Brandão e Alves Costa e tantos outros, sem esquecer Elisa, a empregada de tantos anos.

Joana emociona-se ao falar da mãe. Tem uma memória forte, recolhida bem longe, de ver os pais “a namorar, a dançar na sala”. Alvarinho recupera a imagem de uma mãe “muito divertida e com uma tremenda” paixão pelo pai. Joana, eterna inconformada com aquele desaparecimento, deixa no ar a interrogação contida no que diz ser o grande mistério: “Porque teve tanto sofrimento se tinha um homem que tanto a amava?”

artigo de Valdemar Cruz publicado pelo Jornal Expresso a 7 de Novembro de 2015