
Há muito tempo que uma morada de cidade não me surpreendia tanto. Pela luz. Mas não a luz que me chega pela bonita ambiência dos candeeiros, mas antes a luminosidade que senti numa morada onde os viajantes de rua chegavam com um movimento que já vai sendo raro alcançar nos tempos que correm. Assim, quando a cidade de eleva numa morada onde não é preciso fazer nada. Apenas entrar.
Já conhecia a morada e estava em agenda como uns dos lugares a explorar na minha ida ao Porto. Persentia que seria um dos sítios mais invulgares da lista, mas adoro quando a vida me surpreende superando toda e qualquer expectativa da realidade que esperamos em relação a alguém ou a algum lugar.
Cheguei sozinha depois de um dia a desbravar a cidade fria. A rua está em obras e talvez por isso ainda maior a surpresa de abrir uma porta numa rua em construção. A hora homenageia os horários da Europa do norte, mas ainda vazio, o ambiente e a maneira como fui recebida pela Paula (uma das mentoras deste bonito projeto e que verão aqui a construir esta bonita morada) faz-me sentir que mal entrei já faço parte.
Muito descontraído e a acolher-me na segunda pessoa do singular, o sentimento de que estamos a ser recebidos como se uma casa se tratasse é imediato. O lema do Miss’Opo é esse mesmo, “como se estivéssemos em casa”. As pessoas vão chegando e na atmosfera há um enorme sentido de irmandade e de liberdade. É uma sexta há noite e há casais apaixonados, amigos que se reúnem em grupo, homens que navegam em sofás e eu que vou absorvendo tudo com cuidado, como uma peça de veludo que precisa de ser desenrolada com cuidado, para não ferir a perfeição da textura.
O ambiente respira objetos vintage e a estante com livros resgata-me a atenção. As mesas mesmo sem se conhecerem conversam naturalmente umas com as outras, abraçando o movimento dos vultos. A minha mesa com renda da Avó recebe o guia da Wallpaper do Porto que dá dez a zero comparando com a primeira edição de Lisboa.
Como em casa, a carta é sempre do dia, com o que a cozinha encontra no mercado do dia. Assim como quem olha para as ervilhas e escolhe fazer uma sopa deliciosa com os mesmo nutrientes de entrega raros em qualquer morada distante das casas de referência como a de uma Avó. Era deliciosa.
Lá fora, no meio da cidade decorria o Festival Francesinha na Baixa, e eu que estava tentada a experimentar, confesso que perdi a vontade quando vi a tenda montada na Praça D. João I. Um iglô transparente, longe da atmosfera típica ou de cafés que mesmo sem grande atributos estéticos vendem esta preciosidade do Porto. Nunca experimentei e quando vi a tenda desisti de arriscar a experiência. Por isso quando a serenidade da Paula me disse que “hoje temos duas primas da francesinha” não hesitei.
Missezinha de seu nome, uma de pernil e outra de peixe fui para a segunda opção. Bem mais leve do que a Francesinha, esta prima cai bem à noite e deve ter um quarto, senão menos, das calorias. Mais o meu estilo que cada vez mais procura comer menos à noite. Ainda não desisti de experimentar a famosa e agradeço dicas do melhor café ou taberna para a experiência.
A carta da noite tem muitas tentações, mas porque voltarei muitas vezes fica para um regresso a esta cidade que tem sempre a capacidade de me surpreender, ao ponto de ter achado mais entusiasmante a visita ao Porto do que a Copenhaga no fim-de-semana anterior… gostos não se discutem :-). Mas a Miss’Opo não fica por aqui. Ao fundo da sala pulsa um video – “navegar é preciso” – com o mundo a seus pés. Nos andares de cima a guest house estende o saber receber deste projeto irreverente.
Como morada em permanente construção, de afetos e valores, este é sem dúvida das moradas mais elevadas que visitei nos últimos tempos. Uma morada onde permanecendo apenas, transporta-nos a uma dimensão onde todos os sonhos são possíveis. E para melhor compreenderem o que tanto senti dentro destas paredes muito bem enfeitiçadas, mergulhem aqui e aqui.
Miss’Opo
Rua Caldeireiros, 100 ou Rua de trás, 4 Porto
Tel. +351 222 082 179
www.missopo.com
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entre Lisboa e Porto viajo sempre no Alfa Pendular dos Comboios de Portugal e para segunda casa escolho o Hotel Infante Sagres
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