Martim Moniz, Que tamanho tem o mundo?

É preciso ter mundo para entender o Martim Moniz. E é preciso gostar de pessoas, ter curiosidade pela diferença e acreditar que cada oportunidade em que não sorrimos para um estranho, poderá ser menos um momento iluminado à nossa evolução humana.

Despida de tudo, cheguei sozinha num fim de tarde a esta praça há tanto tempo abandonada na cidade. No desejo e na expetativa, pulsa a alegria de testemunhar quem, como eu, acredita tanto na nossa Lisboa. Não apenas no perímetro dos bairros mais óbvios, como o Chiado ou o Príncipe Real, mas na extensão do que está a ser feito no Intendente, renasce uma nova vibração no Martim Moniz. A revitalização da área, com especial foco da praça, tem mais um o toque de Midas de José Filipe Rebelo Pinto. Parece que foi ontem que almoçámos um dia no Lx Factory e que me segredou o plano. E nos dias em que vejo os projetos ou sonhos implementados, não posso nada mais do que agradecer o que os seus dedos já fizeram pela cidade, como os projetos do Out Jazz ou o Cais do Sodré.

A ambição do projeto não é apenas focada na mistura de etnias, mas também no cruzamento da cultura, que já lá pulsa, com os viajantes da cidade que não costumam passar por aqui, – e não apenas na praça, mas na extensão das ruas adjacentes, com o desejo de fazer crescer ‘uma cidade dentro da cidade’.

Os quiosques existentes foram transformados em bancas de comida rápida, onde é possível provar comida indiana, chinesa, portuguesa, africana, japonesa, vegetariana, entre outras. Abertos todos os dias da semana, com animação redobrada no fim-de-semana com DJ’s, concertos, workshops, debates multiculturais, o ponto alto é o mercado de fusão ao ao sábado e domingo, com vendas de mercearia, artesanato ou roupas. Nunca gostei desta última palavra, já que gosto de observar o mundo a olho nu e chamar aos trapos de ‘segunda pele’.

Assim se transforma a verdadeira experiência humana de contarmos apenas com a simplicidade, o sorriso dos outros. Inicio a minha viagem pelo quiosque BBMTMX, que promete os melhores bubble teas da cidade. Com base de chá de jasmim, chá verde e chá preto, a máquina ainda está a caminho, mas promete os mais originais chás da cidade. Do outro lado da Parça, o BBQMM, um quiosque chinês onde as sugestões do dia eram Porco Agridoce e Porto com molho de ostras – não é para esperar muita apresentação, mas, na genuinidade do Leader que tirou o curso de hotelaria na Escola do Estoril, pode esperar a verdadeira energia da simpatia e do acolhimento. Ao lado, o Kebab Ali House do Bangladesh, onde hilariantemente não consegui trocar o meu português, demarco o Falafel vegetariano e o Durum de frango.

O Sushi Spot é talvez o mais sofisticado e, pela mão sempre exímia do Paulo Morais, estende-se à irreverência do Martim Moniz. Na ideia de mundo, os petiscos portugueses não deixam de marcar presença. É no quiosque do Xico Esperto que conheço a simpatia da Dalila e do João que, no final da ronda, me prepararam um porco preto servido em pita com uma sangria de espumante e frutos vermelhos. Esta tenda é obrigatória pelos sabores nacionais de um chef que estagiou com José Avillez e que, no pedido de qualquer bebida, dá direito a uma mão cheia de tremoços. É tão bom ser português.

Do outro lado da praça, reconheço o Leonardo do já fechado La Moneda, com o quiosque La Porota. Muitos ceviches e outros petiscos peruanos retêm a minha atenção pela irreverência cromática e apresentação original. O Leonardo continua muito simpático e insiste na partilha dos ingredientes, que me prendem a observação. Mesmo ao lado, o vegetariano e macrobiótico Erva Green Cuisine, que já me conquistou para sempre pelo sentido estético: pela mão de duas irmãs, e com a beleza fresca de Carla (não conheci a Sandra) provo o sumo natural de morango e os queques de beterraba e amora. Tudo delicioso, polvilhado com muita disponibilidade em explicar-me o que ainda vai ser feito no quiosque. Aqui ‘gosta-se das ervas, das histórias e das culturas, que brotam de cada semente plantada. Gosta-se do travo a gentes, do cheiro de outros costumes. Gosta-se do sabor agridoce da vida’ que mexe com os sentimentos e as emoções. Com muita entrega, é também feita a horta na direita do quiosque, assim como a hortelã que vai ser plantada nos canteiros da vizinha laranjeira.

O Cantinho Africano irradia generosidade pela presença da Fausta e da Silvia, que me explicam a receita de Muamba. Dão-me a provar pedaços de Quitaba, Jungula e Pé de Moleque e, por mim, ficava aqui a tarde toda a entregar-me a estas intensas e tão bem pecadas calorias. No Chocolate Flavours, os traços bonitos da Luisa contrastam com a textura visual da toalha que exemplificam bem a fusão da morada com o todo. Aqui há saladas, hambúrgueres e gelados da Fragoletto da Baixa Pombalina.

No lado oposto, o italiano de rua Camorra faz pizzas no momento e a irreverência está nas pizzas doces, com morangos ou com banana e canela. A simpatia do Mário e do Miguel, que amassa e faz as pizzas com gosto, aumentam a luz do quiosque e, nas palavras de Carmim, há coisas que são pessoais e intransmissíveis. Assim como a entrega com que Zé Filipe Rebelo Pinto recupera os espaços abandonados da cidade e a quem volto a agradecer com emoção nestas linhas tudo o que tem feito pela nossa Lisboa.

As tendas de Mercado de Fusão acontecem, ao fim de semana. das 10h às 19h e, na última, estiveram presentes a Ecolã, a Ginja D’Óbidos, o Minho Fumeiro, o India That Wears You, a Buganvilia, a Faculdade Medicina Tradicional Chinesa, o Tarot da Carla Contige, o Iska – Hare Krishna, a UniYoga, a Xepa, o artesanato de Teresa Roriz, a Serigrafia Maria e a Câmara Municipal de Lisboa. A esta entidade, faço um apelo e, já que não posso apagar com photoshop o pavoroso Hotel Mundial nem as esculturas do Cutileiro – lamento mas não consigo gostar –, lanço o desafio da Galeria de Arte Urbana intervir nos dois Centros Comerciais que rondam a praça.

Já de saída da experiência viajante, atiro umas pétalas ao nomes dos prédios em construção. Estão longe de serem do meu agrado estético, mas são um alívio na praça, principalmente com o rosto da Carminho ao lado da sanidade mental do nome das moradas ‘Residenciais do Martim Moniz’ que se salvaram de um ‘Residente’. Atrás de mim, corre no minuto antes de descer as escadas para o parque subterrâneo, o chinês Leader com dois copos de vinhos quentes na mão (um para mim e outro para um amigo meu da vizinha Graça que me acompanhou: ‘Já vai embora?’ Com anis e canela, o vinho quente trazia ainda duas estrelas perfeitas de maçã verde e um sorriso do tamanho do mundo, como quem simplesmente agradece a prova: ‘não podia sair daqui sem o provar!’. Com a garantia que nem nas minhas viagens à Áustria provei um Glühwein tão bom, sobra esta generosidade e presença humana que, na abertura de mente, estende esta cidade a uma morada mais sábia. Uma morada onde confirmo a beleza do que representa a palavra troca, elevando as diferenças com que aprendemos todos os dias a ser mais humanos. mais humanos.

crónica publicada a 15 de junho de 2012 na Vogue

Mercado de Fusão Martim Moniz
Quiosques abertos todos os dias das 10h às 24h
Mercado Fusão aos Sábados e Domingos
Praça Martim Moniz, Lisboa
Tel. 92 794 36 71
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