O Tejo das costas largas

Sendo Lisboa uma cidade de sete colinas, proporciona-me altos e baixos estimulantemente contrastantes. Mas além da altura da sua beleza indiscutível, existem momentos reduzidos aos quais não me pretendo nunca me conformar. Um desses exemplos acontece sempre que me desloco a um dos 4 cartões-de-visita da capital, a Bica do Sapato, o Delidelux, o Casanova ou o Lux. Todos exemplos contrários à construção aberrante da Agência de Segurança Marítima e do Observatório Europeu de Droga e Toxicodependência, que viram as costas ao Tejo, em pleno Cais do Sodré.

Serão sempre e até ao dia em que o céu me volte a receber, uma irreversível e vergonhosa pedra do sapato. Como se este desabraço ao rio, oferecido de mão beijada não bastasse, a ampliação do terminal de contentores de Alcântara que o Governo quer levar por diante, implicará uma muralha com cerca de 1,5 quilómetros com 12 a 15 metros de altura, entre a minha querida capital e o Tejo. Sem qualquer concurso público o alargamento da exploração do terminal de Alcântara, por mais 27 anos é justificado pelo Governo como uma compensação ao investimento de mais de 220 milhões de euros, que a Liscont vai fazer na obra de ampliação do terminal. Eu sempre gostei de portos.

Eles alongam-me ao Atlântico, sempre que observo os contentores de diferentes cores. Mas é preciso continuar a desperdiçar lugares centrais para o abraço da cidade ao Tejo, ainda mais numa zona que promete projectos revitalizadores de Frederico Valsassina, Aires Mateus, Jean Nouvel e Mario Sua Kay no esperado projecto Alcantara XXI? Escrevia eu sobre a ideia de mundo…?

coluna de opinião publicada a 30 de Outubro de 2008 no jornal Meia Hora