Laurinda Alves

Sempre com muita dádiva a escorrer das mão e distinguida com o grau de Comendador da Ordem do Mérito pelo debate e defesa das questões educativas Laurinda Alves, jornalista, autora e apresentadora de programas de televisão ‘Portugueses sem fronteiras’, criou a revista XIS, foi Repórter na RTP, distinguida com o Prémio do Clube dos Jornalistas. Também directora da revista Pais & Filhos, colaboradora da TSF, Rádio Renascença foi, colunista no Independente e, mais tarde, no jornal Público, publicou ainda os livros ‘XIS Ideias Para Pensar’, ‘Um Dia Atrás do Outro’, ‘Ideias XIS’ e ‘Atitude XIS’ e recentemente o livro ‘Ouvir, falar, amar’.

Acredita que é uma mulher importante na reconstrução dos valores da na sua geração?
Acredito acima de tudo que não estou sozinha nesta reconstrução de valores.

Manter o ar limpo nas relações é urgente?
É absolutamente vital! Sempre que o ar não está limpo numa relação ela tende a degradar-se. Mais tarde ou mais cedo torna-se invivível.

Porque é que é tão importante para si o olhar interior das coisas?
Porque é dentro de nós que tudo acontece.

Acredita na intemporalidade?
Acredito na intemporalidade sob muitas formas: na intemporalidade da pedra e de muitas obras construídas; na intemporalidade de certos valores; na intemporalidade do amor, da beleza, da natureza. E de muito mais.

Os valores estruturais e ‘estruturantes’ estão em vias de extinção?
Não, muito pelo contrário! Estão outra vez em alta e basta olhar à nossa volta para perceber que a solidariedade e o espírito de entre-ajuda, por exemplo, estão à flor da pele numa esmagadora minoria da humanidade. Como eu acredito que são as minorias que fazem avançar o mundo, tenho a certeza de que os valores estruturais e estruturantes nunca desaparecerão.

Pode-se ser feliz sem viver a profundidade das coisas?
Não. Ou, se calhar, sim. Depende da inclinação de cada um, da sua vocação para aprofundar ou superficializar a vida. Eu não seria feliz sem a profundidade de certas coisas. Não todas, claro.

Como te sentes enquanto mulher promotora do sentido de vida?
Não sei se percebo bem a pergunta, mas sinto que todos criamos e recriamos constantemente a vida; todos promovemos vida; todos nos influenciamos uns aos outros e trazemos em nós a possibilidade de nos construirmos uns aos outros. Nesta lógica ser homem ou mulher tanto faz.

Renascea cada vez que visita os cuidados paliativos, onde faz acção social?
Sempre que estive à cabeceira de doentes numa Unidade de Cuidados Paliativos senti que estava ali a dar tempo, alegria e vida. Na verdade foi sempre isso que trouxe de volta: vida, alegria e tempo com tempo. Impressiona-me e comove-me muito esta capacidade que temos de nos dar uns aos outros, seja na saúde ou na doença; na alegria ou na tristeza. Ser voluntária em Cuidados Paliativos transforma o coração e muda toda a perspectiva da vida.

Um ser humano adapta-se a tudo na vida?
Tudo. Ou quase…

O que representa para si a família?
O meu pilar de estabilidade e o meu lugar no mundo.

Pelos frutos se conhecem as árvores?
Sem sombra de dúvida, é um método infalível. Passe a redundância, nunca falha!

Quais os três valores mais importantes que acha fundamentais na sociedade de hoje?
Abertura de espírito; atitude construtiva; solidariedade.

Relativamente à palavra amizade, sente-se uma privilegiada?
Dizem que cada um tem os amigos que merece e eu dou comigo a olhar para os meus amigos na esperança de estar à altura de os merecer.

A Laurinda é um ser humano carismático… até onde vão os seus sonhos?
Ao ponto de nunca desistir de tentar realizá-los… Posso não conseguir, mas não quero deixar de tentar!

Qual o seu maior segredo de felicidade?
Ouvir, falar, amar.

Como surgiu a ideia de mostrar os talentos portugueses além fronteiras que vimos na RTP1?
Da certeza de que somos uma marca de grande talento no mundo! Agora estou a gravar entrevistas com portugueses que vivem e trabalham em Portugal, para que fique muito claro que somos tão bons cá dentro como lá fora!

Qual o talento que mais a marcou?
Acolhimento com humanidade.

Qual o seu maior sonho ainda por concretizar?
Confessável? Fazer mergulho e explorar o fundo do mar sem medos nem hidrofobias!

Qual o maior património de um ser humano?
O coração.

Estar disponível para os outros é importante?
Radicalmente importante!

Como é que vive a honra na sua vida?
De forma honrada.

A frontalidade é importante?
Vital, mas nunca num estilo “toda a verdade”. É preciso calibrar a verdade de cada um, ter em conta as suas circunstâncias e tentar encontrar o momento certo para dizer a coisa certa. Ser frontal é ter a coragem de enfrentar os problemas, não é ter o atrevimento de dizer tudo na cara do outro.

O que é que de mais nobre já fez pela vida de alguém?
Não me cabe a mim julgar, não sei. Mas lembro-me de todos os gestos nobres que tiveram comigo.

Quando e onde é que se sente um ser humano mais livre?
Quando estou verdadeiramente presa a Alguém, aos outros, ou a alguma causa.

E quais os seus momentos mais ‘chivalry’?
O cavalheirismo não se traduz por palavras escritas, mas apenas por gestos, atitudes e palavras ditas ou caladas.