Galeria de Arte Urbana, Como quem ilumina a cidade


Lisboa é uma tela e as pessoas a cor da cidade.

Quem o disse, numa destas tardes de verão, foi o artista plástico José Carvalho conhecido por 1MA63, ao volante de um Citroën DS3 que mostra a acção Go Arte Urbana (GAU). A ideia foi da irreverente agência Torke que, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, desenvolveu para a GAU um conjunto de acções que pretendem mostrar e partilhar com mais profundidade a arte à solta na nossa sempre surpreendente Lisboa.

A Arte livre ao alcance do olhar é explicada, em detalhe, a bordo de dois Citroëns DS3, personalizados pelos artistas urbanos ParizOne e Vanessa Teodoro. Com um guia, que é sempre um dos artistas das obras de street art seleccionadas, as intervenções podem ser apreciadas pelos turistas ou por quem se retenha nesta dimensão elevada do universo plástico da cidade.

Além das manifestações artísticas nas paredes delimitadas, painéis e prédios devolutos, também os camiões de lixo e os vidrões foram intervencionados pelo dom da criatividade. O programa municipal ‘Reciclar o Olhar’ pediu a cinco artistas reconhecidos da street art nacional, – Maria Imaginário, MAR, Miguel Januário, SLAP e RAM – para intervir em cinco camiões de recolha de resíduos urbanos, com percursos nas zonas da Baixa Pombalina, Bairro Alto e Avenida 24 de Julho. “A iniciativa procurou problematizar a não-distinção entre certos actos de vandalismo sobre bens patrimoniais e as peças de graffiti e street art, concebidas num quadro autorizado pela edilidade”.

As obras estenderam-se também aos vidrões dispersos por Lisboa, por um conjunto de autores convidados – Dalaiama, Diogo Machado, Edis One, Glam, I am from Lisbon, Kebekua, Maria Imaginário, Miguel Brum, Nurea, Pantónio, ParizOne, Recan, Rui Ventura, STU, Travis, Vanessa Teodoro e CHURE – que se predispuseram a deixar o seu registo.

Mais do que um cadastro que polui a cidade, eu sempre senti estas marcas como uma elevada área de intervenção, que com respeito e espaços delimitados, podem fazer muito pelos sentimentos dos viajantes urbanos. Numa altura em que o mundo vive uma crise financeira, que substituo rapidamente por uma crise de valores, é importante qualquer mensagem que se funda com o movimento do nosso quotidiano. E se o grafitti remonta à antiguidade clássica, com inscrições ou palavras e poemas em Pompeia, os anos sessenta de Nova Iorque ou nos anos oitenta na nossa Europa ganham o seu espaço na Pop Art com Warhol, Keith Haring, Basquiat e Banksy, pioneiros que lançaram ‘o fósforo para o milagre do fogo’ desta corrente. O Tate Modern homenageou, numa exposição, esta arte em 2008, enaltecendo a importância dos Gémeos, Blu, Faile JR ou os Sixeart e, hoje, a arte das ruas parece organizar-se numa relevância para os habitantes mais visionários.

A céu aberto e sem qualquer custo, o percurso inicia-se na Fontes Pereira de Melo com os Gémeos (Brasil), Sam3 (Espanha), Eric Ilcane (Itália) – hoje o edifício do crocodilo já desaparecido, e Lucy McLaucland (Reino Unido), passando pela Avenida da Liberdade, Avenida Infante Dom Henrique, Campo das Cebolas – com o José e Pilar de Ayer, Nark, Nomen e ParizOne, aquando do lançamento do documentário de Miguel Gonçalves Mendes; Avenida Cais de Alcântara, Avenida da Índia, Paredão das Amoreiras (os primeiros a serem legais) até ao Largo do Oliveirinha, onde respiram sete painéis que mudam todas as semanas.

E é neste Largo que me retenho. No privilégio que Lisboa tem em organizar os seus artistas de rua com a ajuda da GAU – e lamento que o Porto nunca tenha conseguido fazer o mesmo – o percurso explicado é tão fascinante que derreterá qualquer gelo ou barreira de quem ainda pensa que estas intervenções poluem a cidade. E se penso diariamente num Portugal futuro que apenas visualizo em serviços ou turismo, é nesta segunda que exploro o conceito de uma morada onde a street art daria uma mais-valia ao turismo do país.

Em épocas de crise, é preciso ser-se criativo mais do que nunca e, se esta pode ser mais uma atracão da cidade, sugeria que a Câmara criasse, no espaço abandonado da Rua no Largo do Oliveirinha, um café onde pudessem acontecer tertúlias entre os artistas, que chegam de muitas cidades do mundo. É que, com a mesma ousadia que devemos mergulhar com confiança e dignidade para a página em branco, não há margem para dúvidas, dependerá de nós também, a frase do moral onde se revelam as palavras do nosso Nobel da literatura. Sempre chegamos ao sítio onde nos esperam.

crónica publicada a 10 de Outubro de 2011 na Vogue

Go Arte Urbana
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