For more than twenty years, I have explored Portugal and the world through writing, travel and storytelling, with articles published in national and international press and a TV Show dedicated to hospitality and culture, filmed in Portugal, Amsterdam and New York.

This is my digital portfolio, a curated hospitality, culture, heritage, lifestyle and travel collection of places, people, stories and experiences, from Portugal and beyond.

Sancha Trindade

Quando entrei fiquei imediatamente abraçada às pinturas das paredes.

Cresci no meio dos livros e das histórias mais inteiras. E na visão do cenário imaginado, o homem que gerou a minha vida e que até ao fim dos meus dias imagino, nas palavras de Herberto Helder, contra um cenário de uma biblioteca a arder por trás.

A magia das pessoas importantes das nossas vidas permanecem nos homens que deixam obra e que nos formam como seres humanos maiores. Daí, o reconhecimento do nome de Portugal no mundo e o fascínio por bibliotecas, hoje seladas com a partida do homem das mãos de veludo. Tal como António Champalimaud, é a lembrança de uma obra que viria a inspirar o nome próprio que transporto todos os dias no cartão da cidadã, a cidadã que tanto ama esta cidade. Os livros contam histórias e, mesmo aqueles que ficaram por abrir nas nossas vidas, é neles que depositamos o que deliciosamente está ainda por acontecer.

Hoje, e na sequência da última crónica (permitam-me a confissão), quando imaginei a Saída de Emergência, não vos queria falar apenas de paredes bonitas e opções frescas das esquinas da cidade. O tempo em que vivemos é de transformação interior, contrariando o sentido de uma humanidade que se perde. E hoje sei que a vida será sempre curta demais para não nos entregarmos à evolução da alma, que habita a terra apenas para crescer as suas qualidades humanas. Paro para ouvir o ‘Ave Mundi’ e o ‘Voltar’ de Rodrigo Leão e, naquilo que não posso mudar no mundo, agarro-me à beleza do que é estar à altura de tudo aquilo que nos acontece.

Perante qualquer evolução de um ancestral comum, a origem das espécies e a expressão da emoção em homens e animais que elevaram o nome de Darwin na história, é óbvio observarmos o valor da vida. Darwin dizia que os jovens e os velhos de raças muito diferentes, tanto no Homem como nos animais, expressam o mesmo estado de espírito com os mesmos movimentos. Soberbamente ligados à Mãe Natureza que a vida de hoje tanto tem abdicado na sua forma mais divina, somos chamados à razão. Viajarmos para dentro de nós é uma viagem urgente. Uma viagem que tem o passaporte mais importante de todos: a nossa verdade e a clareza interna num mundo que nos criou apenas para o mais puro nossa da nossa essência.

Na importância das cidades, observo à volta pessoas com páginas de histórias em construção. Num espaço projectado pelo departamento de arquitectura da Lanidor e gerido em paralelo ao dos restaurantes LA Caffé, a mestria do chefe António Runa faz acontecer pratos bonitos, enquanto borboletas voam por cima dos nossos ombros e cardumes de peixes navegam em candeeiros, num único sentido. A equipa move-se eficiente e extraordinariamente simpática. E sei que podia usar todas estas linhas para vos falar da carta que me permitiu um excepcionalmente bem conseguido creme de cenoura, laranja e gengibre e um lombo de mero preto sobre grelos salteados com cebola roxa e tomate cereja. Mas enquanto o tempo urge e me perco em conversas com a melhor companhia do mundo, olho pela janela e sorrio. Sorrio sempre que vejo um barco a passar no Tejo.

crónica publicada a 21 de Julho de 2011 na Vogue (Sancha Trindade visita anonimamente os espaços que descobre pelas ruas da cidade)

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