Chryseia 2011 e uma orquestra de sabores sublimes

Fortaleza do Guincho Almoço Chryseia Symington Family © Sancha Trindade (9)

‘Os grandes vinhos só podem existir se existirem, também pessoas suficientemente afortunadas para os poder apreciar’. A generosidade de um ser humano leva-me até à brisa Atlântica da Fortaleza do Guincho, para apresentação de um vinho elevado, o Chryseia 2011. Numa presença destinada, onde nem os ventos me resgatariam a não estar presente num almoço senão neste, alcanço a fortuna dos dias velozes.

Não é todos os dias que posso apreciar um vinho que nasce da tentativa de de aplicar uma vinificação tipicamente bordalesa a uvas que, por vocação e costume, têm sido destinadas à produção de Porto Vintage. Assim nasce a essência de um vinho das vinhas Prats & Symington, o Chryseia.

Contando-vos um pouco a história deste vinho do Douro, em Novembro de 1998, a família Symington propôs a Bruno Prats a participação num novo projecto, que consistia em produzir um grande vinho não fortificado no Douro. A sua concretização deu-se em 1999, com a criação da Prats & Symington, uma parceria equitativa entre as duas famílias. Algumas vinificações experimentais nesse primeiro ano permitiram definir e escolher as melhores parcelas e as castas mais adequadas para esta marca e o Chryseia 2000 foi a sua primeira colheita ao nosso alcance.

O bordalês Bruno Prats e a família Symington juntam-se então para produzir vinhos tintos a partir de duas quintas, a Quinta de Roriz e a Quinta da Perdiz, que localizadas em São João da Pesqueira, ambas respiram um Douro contrastante. Entre uma encosta em forma de anfiteatro sobre a beleza do Douro e  uma encosta íngreme virada para o Rio Torto, juntam-se dois distintos e diferentes microclimas que dançam na sua maior emocionalidade: o estanho que se sente nos solos de xisto de Roriz e o veludo e a fruta macia que se sente pelo clima mais quente e seco de Perdiz. Ainda as uvas da Quinta da Vila Velha, propriedade de um dos membro da família Symingtom, que se juntam a estas duas quintas para fazer acontecer o Chryseia.

No almoço da Fortaleza do Guincho sou recebida por um dos sorrisos mais humanos com que a graciosidade da vida me presenteou e mesmo atrasada, chego ainda a tempo do Amuse Bouche com um Champagne Pol Roger Brut Vintage 2002. A orquestra de sabores sempre sublime de Vincent Farges inicia-se com um peito de Lombo torcaz finamente laminado, granola de nozes pécan e óleo de pevides e abóbora e miudezas refogadas com butternut e alcaçus, muito bem acompanhado de um Prazo de Roriz 2010. Segue-se o  Cherne assado com cépes, puré de cépes com alho preto de Aomori e molho de vitela, servido com o Post Scriptum de Chryseia 2011.

O Chryseia 2011 chega-me elegantemente assinado pela bonita letra das mãos de Bruno Prats. A sinfonia é composta por um Veado salteado, puré de hokaido com cinco especiarias, frutos de Outono, girolles e molho condimentado com pimenta da Tâsmania.

Nas notas de prova, a cor profunda do Chryseia 2011 releva-se com uma borda púrpura e um aroma mineral e complexo oriundo do estanho que se sente nos solos de xisto de Roriz : cereja preta, rosas e cedro. O vinho é muito suave, aveludado e envolvente na boca, revelando-se logo depois nos seus taninos maduros e sedosos. O seu final é extenso como as paisagens do Douro e os aromas tomam conta do nosso olfacto com grande persistência.  É um vinho muito complexo e elegante enquanto novo, especialmente se considerarmos o seu elevado potencial de envelhecimento.

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Os registos guardam o ano de 2011 como muito seco, e a chuva que deu o ar da sua graça entre Outubro e Dezembro de 2010, foi bem armazenada pelos solos do Douro.  A videira, que sempre estoica consegue beber a grande profundidade e o sublime terroir de Roriz é enaltecido com as chuvas de Agosto e início de Setembro. Mergulhando nos detalhes, “a colheita das uvas para o Chryseia 2011 teve inicio a 16 de Setembro com a Touriga Nacional da Quinta de Roriz, tendo a Touriga Franca dado entrada na adega no dia 30 de Setembro. Toda a vindima decorreu com condições meteorológicas perfeitas, o que contribuiu para que 2011 seja, sem qualquer dúvida, uma das melhores colheitas de Chryseia”.

O grand finale abre-se com uma pré-sobremesa que é acompanhada por um distintíssimo Graham’s Tawny 30 YO, seguido de um Crocante grué com espuma de fava tonka, cremoso de chocolate Otucan e creme glacé de Amaretto. O almoço é fechado com chave de ouro e ao longo dos dias e da memória, de uma experiência que que brota fulgurante mente da terra.

Eleva-se assim o profundo conhecimento dos diferentes terroirs e castas durienses à experiência bordalesa de Bruno Prats, que em conjunto com as melhores uvas de excelência, se revela em Portugal ao verdadeiro espírito de Bordéus. Para continuar a saborear aqui.

 

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