Casa das Penhas Douradas, Acreditar Portugal


Quando se olha Portugal de longe, tudo parece mais simples. É urgente abraçar a criatividade e ter a capacidade de implementar sonhos, numa vida que será sempre curta demais.

E quando observo tudo o que transpira o projecto da Casa das Penhas Douradas no alto da Serra da Estrela não tenho dúvidas: estamos perante duas vidas que jamais serão inúteis.

Cheguei ao topo das Penhas Douradas numa sexta-feira molhada, e o caminho, sentido devagar por entre árvores e mantos dourados de folhas caídas, abria os panos da mística e verdade de um lugar tão único. As imagens são cénicas, mas a casa de Isabel Dias da Costa e João Tomás transpira muito mais do que design ou formas bonitas. Nesta morada idílica, o conteúdo inunda-nos de humanidade alinhada com o Universo.

No momento em que largo as malas no chão de madeira da suite, reparo num livro que me ilumina pelas velas acesas antes da minha chegada. O título é ousado nos dias que correm. ‘Acreditar’ pulsa numa capa verde acentuada pelas tonalidades quentes da chama que habita a biblioteca do espaço. Não é a primeira vez que venho à serra, mas olhando para o estado do país, procuro uma estrela e, na busca de uma saída de emergência, invoco todos os leitores a sentirem a beleza e o motivo desta casa.

A missão é grande e honrada. Com carreiras de luxo – João é advogado e Isabel responsável por mais de setecentas pessoas na Sonae Distribuição – é num ano em que Portugal abana que o casal tem a desmesurada ousadia de acreditar em Portugal. Isabel deixou este ano a carreira garantida para trás em nome de um amor maior. E se sentimos muito afecto à nação em tudo o que mexe, não apenas pela casa que nos eleva e alinha a energia de uma maneira única, é na missão corajosa de ajudar as pessoas de Manteigas que reconheço o valor mais nobre de todos: o associativismo que tanto nos falta enquanto povo.

Os projectos Burel e PDF Food devolvem o trabalho às pessoas da terra, numa missão não apenas de restituir a dignidade dos habitantes destas regiões bonitas de Portugal, mas num generoso sentido de responsabilidade em acrescentar valor à nossa cultura. E porque é tudo feito com o envolvimento do coração e de pessoas de excelência – de toda a equipa, do Chef Luis Baena e de Carlos Coelho da Ivity Brand Corp – os conceitos fazem brotar do solo excedentes outrora esquecidos.

Desta causa elevada nascem tapetes, bolsas, casacos, mochilas, bancos, almofadas ou puffs com um design que chega hoje às ruas de Tóquio, ultrapassando qualquer sonho do que antes era apenas pensado para as capas dos pastores da serra. Há ainda o sabor das castanhas sob a forma de chutneys e outros tantos pestos, ketchup’s, biscoitos, torrões, caramelos, marmeladas ou geleias que, além de mimarem os dias frios de Inverno, contribuem para a economia nacional.

Na linha da PDF Food, os cogumelos saltam à vista. A culpa é da generosidade dos boletus que brotam da terra nos meses de Setembro, Outubro e Novembro. E se a experiência vale a pena pela temperatura física e emocional da Casa das Penhas Douradas, o Spa prodigioso nestes dias de Inverno, a simpatia de quem nos faz sentir como se estivéssemos em casa, e os passeios à volta da moradia estendem os dias passados a uma fusão à Natureza.

O respeito à grandiosidade da terra é guiado por Mauro Matos, o micólogo que nos partilha a sabedoria do maior organismo vivo da terra. Na extensão dos seus quilómetros por baixo do solo, há que saber que nem tudo o que reluz é ouro e que os Amanitas (cogumelos personificados nos desenhos animados de copa encarnada e bolas brancas) são tão tentadores como no conto da Alice no País das Maravilhas. A minha sanidade não resvala na experiencia psicótica do ácido ibotênico de um Amanita Muscaria, mas antes nas empadas de caça quentinhas, no vinho tinto quente com canela e cravinho ou no bolo de chocolate acabado de fazer, que nos aparece de surpresa num dos caminhos da floresta.

E mesmo sem ceder à tentação do cogumelo mágico, o estado é de transe e as imagens falarão por si. É que a experiencia da Casa das Penhas Douradas é de outra dimensão, uma dimensão elevada, que na entrega humana e do amor a Portugal da Isabel e do João a Portugal, elogia a palavra dignidade que apenas encontramos nos amores maiores.

crónica publicada a 24 de Novembro de 2011 na Vogue

Casa das Penhas Douradas
Penhas Douradas, Manteigas
Tel. 275 981 045
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Burel e PDF Food
Rua Nova do Almada, 103 Lisboa
Tel. 21 245 6910
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