Hoje, sem qualquer pedido de explicação ao universo, guardo com ternura uma oração, que me abraça enquanto vos escrevo estas palavras: ‘somos aquilo que nos acontece’.

No mesmo tipo de amor e dignidade de quem a partilhou comigo de mãos vazias devolvo-as devagar ao mar, na lembrança de um diamante em bruto. E hoje, ao escrever estas linhas, transmuto as palavras, como uma miúda guardaria um tesouro dentro de um búzio de verão: ‘somos o que vivemos’.

Os dias não foram planeados. E talvez por isso a beleza dos últimos dias ganhe ainda mais luz pela nobre consciência que me desprende da agitação nos últimos meses. Aqui, no topo da Carrapateira, na única casa que se avista ao lado esquerdo da Praia do Amado, o tempo não gasta as prateleiras mais puras, o tempo não se esconde, o tempo não faz esperar o potencial de todos os seres humanos que constroem, cada um à sua maneira, os dias vividos.

Na casa cénica habitam texturas e viajantes de almas tão diferentes, como as imagens inesquecíveis que recolho todos os dias das largas janelas. Na beleza dos dias, um homem salva-me pela capacidade de um sorriso contagiante e no meu humilde abraço, uma enorme gratidão. Como podemos nós tantas vezes não emanar mais luz? As gargalhadas soltam-se como as ondas, que rebentam lá em baixo na praia e na sustentação da grande mulher, que tem a generosidade de juntar pessoas tão diferentes, o privilégio de recolher de cada vida presente, a sua melhor essência. Assim se constrói a beleza na Casa da Falésia, dias que passam e se fundem em cima do Atlântico, numa história única que as paredes guardam para sempre.

No firmamento que entra pela casa a dentro lambo as feridas de um Portugal que tem vivido mais triste e conto os guerreiros que rasgam as águas nas suas tábuas de salvação. São mais os que habitam o mar do que os que estão no dourado do areal e na plenitude de todo o mel da casa sorrio por dentro, ao reconhecer a dádiva de gozar este paraíso a tão curta distância de casa. Quantos países da Europa podem fazer o mesmo?

As energias limpam-me o ego, tantas vezes infrutífero e mesmo nos dias em que ‘a chuva limpa a morte dos dias’ nutro-me pelo mais importante de tudo, a aproximação dos corações. A casa, perfeita, edificada a madeiras marítimas, a branco e a azul anil daria uma boa fotografia de Duarte Amaral Netto ou um bom cenário de um filme de verão de Wong Kar Way. Nos movimentos que acompanham a ondulação da casa, o acesso difícil e a deliciosa limitação de um pedaço de terra distante do mundo, onde a lua se revela de uma forma improvável. A água que nos lava também a alma chega pela generosidade dos bombeiros, a recorrente falta de luz permite conversas ainda mais íntimas à volta da mesa e o caminho faz-se para a praia pelo condão dos nossos passos. Depois da praia janta-se sem tempo, e absorvem-se fitas projectadas nas paredes da casa. Há homens que com a felicidade pendurada nos ombros, se entregam ao violão por um amor maior e há sossegos puros na vontade do encontro das páginas dos amigos silenciosos.

Do outro lado do mar escrevem-me uma carta inesperada. Diz o rapaz das bibliotecas que as palavras de quem assina esta crónica têm um valor profundo como a escrita da Marguerite Yourcenar. Disso não tenho a certeza, mas não duvido da grande mulher que me deu a bênção de habitar esta casa num verão que como escreve um poeta distante ‘tem coisas que não precisam de nome’. Nas palavras de outro tempo que edificam esta muralha leio imagens de Nabokov. No amor e no silêncio diz que ‘um homem só vale aquilo que ama’. E se acredito que ‘cada um de nós vale tanto mais, quanto maior for a sua capacidade de amar’, no fim do dia não restam dúvidas, somos, seremos sempre… também aquilo que amamos.

– Sancha Trindade decidiu este ano fazer apenas férias ‘vá para fora cá dentro’ –

crónica publicada a 18 de Agosto de 2011 na Vogue

Carrapateira
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