Vogue Chego ao Nhow Hotel quando Berlim já dorme e, além das cores fortes que me levam de elevador, guardo como um tesouro o sorriso gratuito e constante do Timothy Uhunamure, um nigeriano que além de me ajudar com as malas, derretia todo o gelo dos sorrisos inexistentes das ruas da cidade.

Não me queixo da eficiência, mas troco-a inteira pela graciosidade humana de um homem que, na sua mais pura simplicidade, se mostra tão feliz. Nas margens do rio Spree, nasceu o primeiro hotel da Europa cem por cento musical. E se a estada é elevada nas cores e nas formas que o designer de interiores Karim Rashid tanto gosta de dar aos seus ambientes, o espanto maior está no encontro do piano no quarto, ou na guitarra electrónica que trago do hall. Na certeza que se dorme muito bem neste hotel, prepare-se para se sentir a Barbie (ou o Ken) já que a cor rosa em vários tons domina os espaços, com pequenos apontamentos de lima, laranja e lilás. Chega ao detalhe deliciosamente enjoativo do telefone, das amenities e dos lençóis de banho. No frigorífico, há champanhe e guias cool da cidade e, na sala de estar, há sofás dourados e chaise longs ao estilo de divas contemporâneas.

O pequeno-almoço rosa continua, e se o melhor e mais bonito que experimentei na vida foi o do Armani Hotel no Dubai, este não lhe fica atrás em beleza e qualidade – mas numa versão low cost, já que cada quarto ronda apenas os cem euros.

O dia acorda com Sol e, entre uma exposição à beira rio que evoca o muro de Berlim e o Homem Molécula de Jonathan Borofsky que caminha sobre as águas, sou levada ao impulso de um jogging até ao Treptower Park. Nunca mais me esqueci da inspiração de Ana Horta Osório – e se hoje corro nas cidades do mundo, devo-o à sua forte inspiração e testemunho – é a melhor maneira de conhecer alguns dos recantos mais urbanos. Há muitos berliners à beira rio a apanhar sol nos pedaços de cimento mais insólitos.

Não tenho muito tempo para parar porque a velocidade leva-me o pensamento a toda a fragilidade de uma barreira que começou a ser derrubado na noite de 9 de Novembro. É nesse mesmo dia que escrevo este texto e, se depois de vinte e oito anos de existência, já está longe a impossibilidade de viajar, retenho-me no privilégio da liberdade tão importante para a sanidade, evolução e humildade da nossa natureza humana.

Uma pintura urbana diz-me que a mensagem é importante e, numa cidade onde o rio já corre sereno, observo uma imagem idílica de um abraço de três copas de diferentes árvores. O jardim pulsa os tons dourados do Outono e o iPod que puxa por mim surpreende-me no momento mais bonito de todos com as Forbidden Colors, de Ryuichi Sakamoto. No jardim não há espaço para feridas e, se na história existiu um dia de cores proibidas, não duvido do solo que existe debaixo de mim, nem do que o amor consegue fazer pelos seres humanos. Círculos de incerteza deliciosa que me levam uma ao encontro das copas das árvores mais perfeitas.

Berlim está inundada da palavra vintage por todo o lado e, na lei do aproveitamento que torna a Alemanha uma potência europeia de excelência – é numa das cidades mais pobres da Alemanha, Berlim, que encontro o tesouro dos amigos silenciosos. O Michel Berger é um hostel na Warschauer Straße, com um café onde era capaz de passar um dia inteiro. Com livros espalhados em estruturas de ferro, cabe ao leitor a libertação das páginas com as duas mãos com a mesma serenidade de quem não receia a nobreza da espera.

crónica publicada a 9 de Novembro de 2011 na Vogue

to be continued…

Voo para o Berlim
www.easyjet.com

Nhow Berlin
Stralauer Allee 3, Berlin
Tel. +49 30 2902990
www.nhow-hotels.com/berlin/en

Michel Berger
Warschauer Straße 39
www.michelbergerhotel.com