Bambolina, A vida são dois dias

E o carnaval são três, diz o ditado. Com a festa de máscaras à porta, temos duas opções: ou curtir a crise; ou imaginar que podemos, com a atitude certa, ir melhorando tudo aquilo que queremos ser na nossa incessante vida.

Oiço, num dos cafés da cidade, o comentário de que Portugal viverá pendurado na palavra crise mais uma década. A minha pergunta interna é imediata: e estaremos nós dispostos a viver uma década da nossa vida, a alimentar as palavras ‘desgraça’ e ‘pessimismo’? Não há dúvida que, este ano, a vontade era fazer esgotar o disfarce de Mágico da Lâmpada ou fugir num tapete de Aladino. Diz o ditado popular que “quem boa cama fizer, nela se deitará”, e o que sinto dos aromas do enxoval da Bambolina, que se cosem também com as linhas do desafio, é que esta é uma morada que testemunha o ser português de fibra, daqueles que não partem, que não vão embora, mesmo que o espetáculo tenha sido cancelado.

Ana Brito e Cunha é fundadora da Bambolina, uma produtora de emoções, de talento, de teatro, de espectáculo, de cultura, especializada em espetáculos, ações de ‘sketch’ para empresas e particulares, oficinas de teatro, ações de formação, aluguer de salas para ensaios e aluguer de roupa. Tudo acontece num primeiro andar da Avenida da Liberdade, com vista para as árvores de um dos passeios mais famosos da cidade.

Ninguém tem dúvidas que, às portas de do Carnaval, uma morada como esta cai como um ‘el dorado’, numa Lisboa que, dentro dos tons cinzentos, pode ultrapassar-se à realidade da tristeza, com um hoje que, bem disposto e vivo, nos trará um amanhã melhor.

E neste, para muitos impossível, toque de Midas, Ana Brito e Cunha tem a energia e o talento para acreditar no seu projeto, agora com um espaço à altura do guarda-roupa e ideias que coleciona há anos. Nas suas palavras, ‘a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso mais vale cantar, chorar, dançar, rir e viver intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos’.

A esta verdade impossível de fugir, os seus sonhos ocupam agora corredores largos em tons dourados e linhas retilíneas pintadas ao estilo de Luis XVI. Ainda com laivos de ‘delabré’, as alas abrem-se com a mesma magia dos teatros antigos. ‘Foi um ato de nobreza esperar e hoje ter conseguido este espaço’, diz-me com a mesma alegria jovial que define a sua sempre consistente humanidade. Quem a segue, mesmo na distância e muitas vezes no silêncio, como é o meu caso, sabe que para esta lisboeta as metas são fitas para ser cortadas.

A dedicação corajosa e notável que tem dado à sua carreira testemunha isso mesmo: a procura da felicidade. E, ao falar com Ana Brito e Cunha, esse pulsar raro do sangue português, de nunca baixar os braços ou de viver a vida sem nunca queixar-se, corre-lhe na pele. Imagino que, numa época de crise como esta, seria mais fácil continuar a viver das suas representações nos ecrãs que inundam as casas portuguesas nas horas mais nobres, a embrutecer o povo. Felizmente, o seu sonho é mais digno.

De que serve a vida sem sonho, sem magia, sem imaginação ou vontade de alcançar uma realidade mais elevada, são as sensações que me chegam enquanto me vai abrindo as portas. Estar aberto a acreditar e a desejar mais e melhor é enaltecido como uma sobrevivência à nossa dignidade.

A agenda no escritório da atriz produtora escreve-se a giz nas paredes, entre caixas e divisões forradas a papel. Pelas assoalhadas da casa, espalham-se histórias com peças de divas de várias décadas e, numa das paredes, um vestido de noiva exibe uma rara história de amor. A agitação da morada desdobra-se em salas grandes, produção e ensaios, ganhando ainda mais luz quando descubro a cozinha, antecipada por uma copa à antiga, pintada em cores vintage, e onde é também possível partilhar um café ou um chá de final de dia.

Ainda em construção estética, nada é deixado ao acaso e é na visita às grandes salas do guarda-roupa que os meus olhos abrem ainda mais. As cores, as luzes, as peças vintage ou o carrinho que vejo – pronto para uma produção com um tema de amor. Nas emoções, nas cores e nos materiais, na Bambolina toda a imaginação é ordem para criar. Afinal quem pensa este projeto é uma pessoa real que, por trás dos disfarces e máscaras que constroem um dos guarda-roupas mais apetecíveis da cidade, e que por trás de personagens e peles que vai encarnando ao longo da sua vida e carreira, nunca deixou de ser ela mesma: uma mulher para quem não existem impossíveis e que nestas paredes antigas, se transforma numa fada pronta a recriar o melhor lado da vida. A nossa.

crónica publicada a 17 de Abril de 2012 na Vogue

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