À Parte, Há um apartamento em Lisboa

Uma grande amiga minha costuma dizer-me, a rir, que Lisboa existe até ao Marquês de Pombal e neste caso, concorde-se ou não com a geografia do melhor da cidade, Lisboa ganha pontos nas Avenidas Novas.

O À Parte, de apartamento, não é novo mas, tal como a Estrela da Bica, que partilhei por ser uma das minhas casas de jantar preferidas, este restaurante mantinha-se escondido da minha lista até tropeçar na irreverência pouco vulgar das divisões de uma casa.

Henrique Chance Pinheiro, paulista de gema, abriu as portas de um apartamento, na Defensores de Chaves, com uma portuguesa de Trás os Montes, Lina Santos. Nascido no dia da independência do Brasil, 7 de Setembro, a causa justifica também a importância de se poder jantar numa sala com movimentos e atmosferas isoladas umas das outras. Cada divisão conta uma história, e eu até fiquei numa das menos bonitas, com paredes de chocolate e quadros antigos. Ainda pedi para acender as velas que estavam no aparador, mas não aconteceu até ao final do jantar. E se o conceito é precioso à cidade, em alguns detalhes merecia mais qualidade nas peças.

Nas opções, o Espadarte grelhado com risotto de camarão, o Filete de peixe-galo na chapa, Esparguete com vieiras, ou Lombo de bacalhau confitado com gnocchis, acompanham o Magret de pato com ananás grelhado e calda de laranja, o Rumsteak com mash de batata, legumes salteados e molho de mostarda em grão, o Risotto de alheira com espargos verdes, Risotto de perdiz com farinheira, o Chouleton de vitela charolesa, o Fettuccini com gambas e brócolos ou a salada de parmesão com nozes. Escolho um dos pratos do dia: Lavagante escalado para dois com risotto do mar. O marisco ligeiramente seco, o risotto a repetir.

O serviço é rápido e agradável mas, na hora das sobremesas, o tabuleiro com as iguarias à vista rouba-me o mistério do pecado. Gosto de desejar o imaginável. De desejar o que ainda não se toca. Chegam num tabuleiro de uma arca frigorífica ao alto (que, pessoalmente, tiraria da sala de entrada) e, entre o Cai Cai de chocolate, Mousse de manga, Mousse de côco e outra tantas que se confundem em copos, a partilha de um doce de bolacha não foi a melhor escolha por ser abrupta na consistência.

Voto sempre muito no movimento das cidades e embora tenha sentido demasiado alto os trinta euros que deixei, a experiência das diferentes salas vale por si, assim como a importância da privacidade possível, num jantar mais íntimo nas ruas de Lisboa.

crónica publicada a 24 de Maio de 2012 na Vogue 


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