Praia do Salgado, a oitava

Este fim de semana Portugal elegeu as 7 Praias Maravilha de Portugal. As vencedoras são o Guincho, a Ribeira (Azibo), Porto Santo, Lagoa do Fogo, Odeceixe, Furnas (Milfontes) e Zambujeira do Mar. Anunciadas na noite de sábado numa gala em Tróia, o Alentejo é a única região portuguesa com duas maravilhas e três das praias ficam no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Não sou muito de médias generalizadas e gosto das eleitas, mas há lugares que por alguma razão nos marcam para sempre. Esta imagem foi tirada este ano e marcou um dia muito feliz, em que a gratidão da vida confirma a contemplação da responsabilidade de vivermos abraçados à energia da gratidão. Dias antes este mar poderoso e instável tinha abraçado para junto de si, um avô e uma neta. Não é uma praia para meninos, e também eu, há vinte anos ia perdendo a vida nesta praia.

De mão dada à  Nazaré que imortalizou a onda perfeita, a praia do Salgado é para quem passa férias em São Martinho do Porto um templo, onde o mar atinge a sua força mais pura. Nela guardo dos meus Verões de miúda, em São Martinho e na memória da vila deliciosa onde as crianças são deixadas à solta. Não me orgulho do urbanismo do Oeste, nem do cenário prédios horrendos e de esplanadas de plástico com publicidade, que invadiram esta vila do meu coração de menina. Mas quando lá passo, nem que seja um fim de semana grande porque para os sobrinhos andar à solta é um paraíso, as memórias regressam ao presente, com o pão quente, as festas em casa dos Eliseus, os jogos de verão, o Sr. Meca pescador, a D. Rosa dos bolos, as patuscadas de marisco do Sr. Álvaro, o Sr. Manuel Careca, a Dr. Júlia que agora vende gomas em vez de furos onde se ganhava o Coma Com Pão e o Jubileu.

São memórias que permanecem consistentes, numa praia que tem a praia do Salgado como extensão de fuga às águas calmas da baía. A força do mar e o perigo que lhe dá fama trás-nos o cheiro a robalo, o cheiro a Atlântico que nos chega à pele, mesmo deitados na toalha em forma de bruma salgada. A areia de concha partida, os fundões e os remoinhos cruzados sem grande espaço de distância, fazem desta praia uma das mais perigosas e bonitas de Portugal. E só quem lá cresceu sabe do que falo. Óptimas para as ressacas de adolescente e de noite de dança no Green Hill, nas noite da Foz, ou para limpar energias, num areal a perder de vista, tem ainda o carisma da nobreza da espera de um dia de bandeira verde.

Nesta praia ganhei o respeito à vida, não fosse eu um dia ter estado por um fio, aos dezasseis anos (e aqui agradeço ao Nuno Megre Pai me ter ido buscar) num dia em que entrei em águas calmas e dei por mim num mar que comparo a uma composição das mais duras de Wagner. Perante o silêncio que me acolhe sempre que me afundo nesta areia e perante a  beleza selvagem da orquestra estas ondas me dão retenho-me no mais essancial da vida, somos nós que pertencemos à natureza. Não o contrário.

(na extensão desta crónica partilho a vontade de acabar em Portugal com as poluentes e barulhentas motas de água. aliás do mundo inteiro. nunca vi actividade tão desrespeitante ao que temos de mais sagrado no mundo. a elevada energia do Mar. e quem o escreve assina esta Plataforma Atlântica).