For more than twenty years, I have explored Portugal and the world through writing, travel and storytelling, with articles published in national and international press and a TV Show dedicated to hospitality and culture, filmed in Portugal, Amsterdam and New York.

This is my digital portfolio, a curated hospitality, culture, heritage, lifestyle and travel collection of places, people, stories and experiences, from Portugal and beyond.

Sancha Trindade

Uns minutos de silêncio

Ontem não pude estar pelas pontas dos dedos e peço desculpa a quem sentiu falta. A taxa de desemprego chegou hoje aos 15,8% e fico assim gelada. Mas o que me preocupa mesmo é o desespero das pessoas. Um ser humano próximo decidiu desistir e há momentos em perante tamanho precipício, apenas consigo ficar em silêncio. Em 2010, um amigo que gostava muito tomou a mesma decisão, no dia em que o meu Pai partiu e isso marcou-me para sempre. E por isso quando me chegam notícias de quem desiste, fico sem reação e dou-me ao luxo do silêncio.

Há desistentes que seguem em frente. Outros que por medo, se arrependem e pedem ajuda ao vizinho. E felizmente ficou no segundo caso. Não é nem será o único. Os anti-depressivos estão a crescer em Portugal e o desespero também. Mas eu, mesmo comc os meus momentos mais difíceis – que todos temos – tento sempre agarrar-me aos momentos mais simples do dia. Ontem perante tamanha notícia e com o silêncio colado aos ombros, subi a Calçada do Combro e recolhi a pureza da luz laranja de Outono que tocava a torre da Igreja.

Não acredito que isto melhor nos próximos tempos – e já sabem que vivo a vida do copo meio cheio – mas temos mesmo de nos apoiar uns aos outros e não alimentar isolamentos que só levam a tornar ainda maior o problema.  É este o momento para mostrar do que somos feitos e quem escolhemos para nos rodearmos.

As pessoas revelam-se em situações críticas e tenho visto agradáveis surpresas e episódios nunca imaginados, onde o interesse se revela egoico e em prol do salve-se quem puder, mas a ‘crise’ quando nos bate à porta também serve para apercebermo-nos com verdade quem está do nosso lado.  Os tempos andam duros, sim,e por isso é tempo de nos rodearmos de pessoas que nos iluminam os dias. Por isso a tanta triagem de pessoas. Uns que se revelam, outros que partem, outros que chegam do nada como verdadeiras dádivas improváveis. Identificam-se?

Como sempre me ensinou Scott Peck, ‘á vida é (por norma) difícil’. E o caminho é para percorrer. Uns dias a correr, outros dias de arrasto pendurados nos ombros de amigos, mas andemos. Andemos que a vida apenas avança e será sempre curta. Curta demais.

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