Uma lenta reverência

António Ramos Rosa escreveu um dia que cada árvore é um ser para ser em nós. Para ver uma árvore não basta vê-la. A árvore é uma lenta reverência, uma presença reminiscente, uma habitação perdida e encontrada. À sombra de uma árvore, o tempo já não é o tempo, mas a magia de um instante que começa sem fim, a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas e de sombras interiores. Nós habitamos a árvore com a nossa respiração, com a da árvore. Com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses.

As árvores têm um papel fundamental nas cidades. Além de melhorarem sem dúvida a qualidade do ar, diminuírem a erosão dos solos, reduzirem o perigo de cheias e contribuírem para melhorar o ambiente social, encorajam as actividades ao ar livre.
Responsáveis por absorver o dióxido de carbono e transformarem-no em oxigénio, diminuem as emissões de CO2 que contribuem para o aquecimento global. Responsáveis por filtrar os poluentes ambientais, as baixas temperaturas associadas à sombra das árvores podem reduzir a percentagem de hidrocarbonetos que evaporam do combustível dos automóveis.
Como se isso não bastasse, as árvores atenuam os ruídos e embelezam a cidade. No começo da Primavera faço-lhes homenagem. Infelizmente são muitas as destruições das escassas zonas verdes de Lisboa e sem conta as diversas caldeiras sem árvores, ou cepos, muitos deles ocos e a servirem diariamente de caixotes do lixo.
No entretanto e porque o sonho também existe, por estas linhas alcanço as imagens breves, onde costumo esvoaçar sobre as calçadas. Nesses dias, os passeios são inundados pela beleza dos Jacarandás.
coluna publicada a 24 de Março de 2008 no jornal Meia Hora